desabafos de agosto, férias por todo o lado

feriado que já não é (2)

a umas horas do 1 de dezembro. já é amanhã, domingo. tempo de o país se preparar  para evocar a restauração da independência.  amanhã, os jornais falarão disso, trarão a lume curiosidades deste período tão difícil e, penso eu, que, não resistirão à tentação das comparações do significado de independência, de então, e de agora. pois, é que, afinal somos reféns daquele célebre memorando,   assunto que nos incomoda há muito tempo. e dizem que é para continuar. se é para ser assim, apetece-me pedir a uma família finlandesa que me adote, pois já que paga para me ir sustentando, podia ser simpático acolher a pelintra que se vai governando desta forma infame. resisto a terminar com um  grito patriótico. boa noite.

desabafos de agosto, férias por todo o lado

crise, europa, e

burros. li num artigo do “the new york times” considerações sobre a crise europeia. e curiosamente chamou o burro-de-miranda para fazer notícia. eu, a este animal, devo grandes alegrias vividas nas chamadas  férias “grandes” que me levavam a uma aldeia da beira-alta para passar agosto e parte de setembro num cenário cheio de granito. entre os bons momentos ali passados, recordo as voltas dadas num burro de empréstimo, cujo proprietário era um primo afastado da minha mãe. àquela hora da tarde, estava eu à espera ali, junto às escadas de casa, e assim que chegava era uma alegria. durante um bom bocado lá andava o pobre animal às voltas, comigo ao comando. o percurso era sempre o mesmo, e o entusiasmo não esfriava. eram férias mesmo boas. hoje, podemos ter mais conforto, outras opções, mas penso que, apesar de tudo, tive muita sorte por ter tido a possibilidade de viver algumas experiências, que, atualmente ,só em quintas pedagógicas, ou através de projetos de conservação animal, as crianças podem viver outras emoções que as cidades não lhes permitem. quanto ao artigo americano, não sei se fique alegre ou triste por usar esta espécie asinina para ilustrar um período tão negro da economia deste tempo.

desabafos de agosto, férias por todo o lado

vida de mulher multifunções

já estava preparada para me demorar depois de sair do trabalho. faria as minhas compras de legumes e frutas num lado, e depois haveria de rumar ao supermercado buscar o restos dos consumíveis. vai, estaciona. sai. prateleiras passadas a pente fino. fila. paga. carrega. entra no carro. dá a curva, sobe. contorna  a rotunda. supermercado a 10 metros. entra no estacionamento. sai. corredores. nervos : aqueles potenciadores da diabetes… estão lá sempre a tentar-me. mas eu precisava mesmo era de ovos. por isso , hoje, colesterol à cabeça. já tenho tudo. fila. “- oh! esta agora vai fechar,”- diz consternado o rapazinho da caixa. outra fila, duas senhoras. deve ser rápido. são mãe e filha: “- já pagaste?” “- então! eu tinha dinheiro trocado!”. ” e cartão? apresentaste o cartão de desconto?” “- sim” . muito bem, o diálogo entra em fase suspensa, recupero esperança que me vou despachar. é a minha vez. vem o saco. compras lá dentro. quase a pagar. uma senhora resolve devolver o pão de forma integral e pespega-o na máquina registadora de onde ha de sair o meu talão. “tem cartão?”- ” pois não senhor” respondo rápido.e agora a máquina encrava. nem uma nem duas. “- ó beta, como é que faço?”- a beta explica. faz muitos “touchs” no ecrãzinho da máquina, está tudo bem. parece que aquela manobra de reanimação pode trazer o meu talão. mas , afinal não. e … “- ó beta, esta senhora vai levar o talão todo amarrotado”. ” minha senhora, não se incomode com as rugas do meu talão- clamo eu- olhe a fila a alongar-se, se eu estivesse atrás de mim própria neste momento, creia que estava cheiinha de nervos, aliás como estou a sentir-me, e não é bom para a minha tensão alta. vamos passar à parte prática; pagar e desandar.”- desculpe, a culpa foi minha!”- arenga a cliente atrás de mim. “deixe lá!-adianto! eu agora não tenho tempo de lhe pedir que faça um ato de contrição, ficamos assim, e na próxima, não compra pão integral, não há cá lugar para arrependimentos. que canseira. estou para sair e as duas primeiras “empatas”; mãe e filha regressaram à caixa, esperando do lado de fora,  com um produto na mão, prontas para reclamar. saio a hiperventilar.

desabafos de agosto, férias por todo o lado

hoje…

Imagemos raios solares fazem-se ver, mas não se fazem sentir. o senhor vento sobrepôs-se ao astro rei e corta-nos a boa onda de cada vez que damos alguns passos mais corajosos. mas, hoje, independentemente das condições atmosféricas, se sair  a horas decentes, em que a claridade ainda seja uma realidade, juro que hei de ir à rua. e para quê? para apanhar vento na bochecha, e assim verificar que há vida lá fora  para além do trabalho que faço cá dentro. vou sim. juro que vou.

estes é que aguentam bem..

desabafos de agosto, férias por todo o lado

o que fazer

quando se está  numa fila numa estação de correios, de senha na mão, a tentar não desesperar com todos aqueles que estão à minha frente e parecem trazer toda a correspondência da paróquia, e depois de despachada, ao sair aliviada por ir para casa, já na rua, há alguém  a olhar-nos, a sorrir-nos, esperando uma retribuição, e nós nada? ignoramos? dizemos a verdade? ”desculpe, mas assim de repente, não estou  a  reconhecê-la!  mas eu sei que conheço, só não me consigo recordar de onde.ou alinhamos na conversa, fazemos de conta que sim ? comecei com a estação de correios para contextualizar, apenas, mais nada.continuando, nesse caso, se for para alinhar, para não deixar a pessoa cabisbaixa e com a autoestima decapitada, e mesmo sem elefante com tabuleta pendurado na tromba  a avisar-me de quem se trata , tento acompanhar a conversa, apanhar pequenas pistas, e lá vou sorrindo para compor o quadro onde estou plantada. deste modo, exerço um pouco do espírito caritativo que me caracteriza. no entanto, estou cá a pensar que, se não for espírito caritativo, é capaz de ser estupidez, mesmo!

desabafos de agosto, férias por todo o lado

histórias lá de casa…

lá por casa eu ia trazendo as novidades que chegavam às prateleiras do supermercado. um belo dia, vi uma nova embalagem de desodorizante que achei apelativa. nada parecido com o que se vê agora. o produto vinha num  frasquinho. era transparente e a “bolinha” roll on  lá estava tapadinha com uma tampa, de tal modo que, olhando bem, quase parecia um frasco de shampoo. só que não era. a minha mãe, pessoa muito distraída, levou tempo a crer que, de facto, estava perante um desodorizante. em dias de maior pressa e se quisesse lavar a cabeça, aquele frasco ali, mesmo à mão, era sempre amaldiçoado por ser tão difícil de abrir. pois não tinha uma porcaria de uma bola pegajosa que não deixava correr o líquido? – “ mãe! olhe bem! só digo isto uma vez: esse frasco não é um shampoo, é um desodorizante!”- respondia eu depois de ser chamada a verificar a razão de tanta teimosia por parte daquela embalagem insignificante em fazer o seu trabalho. – “ah! pois é! já me tinhas dito!!- anuía a minha mãe. eu ficava descansada e seguia a minha vida. só que, naquele dia, não estava ninguém em casa. vendo-se sozinha, resolveu ir buscar algo suficientemente perfurante que lhe permitisse abater aquela bola peganhenta de vez. a minha mãe venceu. a ”bola” desapareceu . oh! felicidade. agora sim! foi só verter o líquido para a mão e espalhá-lo uniformemente por toda a cabeça. pois foi. só que, assim que o produto entrou em contacto com o cabelo e a água quente, atuou como super cola 3 e os trejeitos que tinham sido feitos ao espalhá-lo fizeram com que a minha mãe entrasse no movimento “punk” à força toda. dona A. ficou uma crista digna de se ver. pânico, horror, tragédia. e agora? agora, sua teimosa, verta um frasco de óleo johnson por toda a cabeça a ver se resolve. assim foi feito, mas demorou um pouco a voltar ao normal. foi remédio santo. nunca mais comprei novidades de impacto.