desabafos em rodapé

desenvolvi esperanças tão boas…e agora…não sei!

vivo num prédio.  neste prédio vivem pessoas. algumas já se mudaram, outras mantém-se. eu estou cá desde sempre. e sempre, é para aí há uns 15 anos. então, os meus vizinhos, que eu mal conhecia, eram pessoas muito sãs. sabiam o que queriam,  e tinham a noção de como se deve viver numa casa alta com assoalhadas categorizadas em tipologias muito específicas, e éramos felizes. bem, eu, às vezes ouvia o choro de uma bebé através de uns tubos que acompanham todos os apartamentos, mas era só. cheguei a ter um labrador como vizinho, pequenino, fofo que só ele, era uma espécie de mascote aqui do lote 10. numa altura desta etapa, cheguei  a pensar que, mesmo por baixo das minhas assoalhadas, vivia um casal gay. quando falavam na varanda, soavam-me duas vozes masculinas, e eu pensei estar em comunhão com o Cam e o Mitch da série “uma família muito moderna“. oh! senhores, que prédio eclético este. que luxo. cruzava-me com ambos no elevador e ficava a pensar na sorte que tinha, pois podia assim fazer alguma inveja à vida e à  vizinhança monótona das minhas colegas. mas o orgulho, como pecado capital, tramou-me. desvanecidas as peneiras, confirmei que, afinal, era uma família do mais tradicional: pai, mãe, e dois filhos que deviam ser quase da mesma idade. as vozes masculinas? eram de todos eles. a senhora devia ter um problema gutural…

um dia saíram. mais tarde, veio um casal muito moderno também; daqueles que têm carros muito bons e mota para o fim de semana. tudo a correr bem. foram pais. quiseram uma casa. saíram. felicidades é o que lhes desejo.

casa à venda. ui! tempos e tempos! e eu descansada. silêncio, era a palavra de ordem. até que um dia, uma carrinha de mudanças, abalou o meu frágil equilíbrio no que  a vizinhos diz respeito. em menos de uma semana, dei conta que a feira do cavalo que, julgava eu, se realizava na golegã, tinha aqui, no lote 10, pequenas edições. a trote, a galope, havia de tudo. pensei inclusive contratar um ferreiro para dar assistência a tais solípedes.

o macho alfa que os comanda, deve ter engolido um megafone enquanto era pequeno, pois o tom de voz é perigosamente alto. as crias (tenho medo de uma delas, é tão grande que, com um sopro, pode muito bem  deitar-me ao chão), também devem tomar as mesmas vitaminas, uma vez que os decibéis, por vezes, excedem o recomendado legalmente. contudo, algumas reuniões de condomínio foram o suficiente para acalmar o ambiente.

esta semana, ao entrar, vejo um sofá a sair. uma carrinha de mudanças. o meu coração acelerou. desenvolvi esperanças. mas até agora, nada. cá continuam. aposto que os safardanas venderam o sofá através do OLX  e esperaram que eu chegasse, só para me tramarem  a tensão arterial. que raio de vida.

coisas da vida

conversa de garotos com conteúdo anatómico

esta conversa terminou a minha semana, mas tem propriedade para dar início a esta.

três miúdos a rondar os onze anos: dois, filhos de colegas, um outro, amigo deles. estávamos a 23 de abril e a conversa andava à volta da efeméride próxima.

pergunta para mim: antigamente (hein!!!???), isto sou eu exclamo-admirada-indignada, antigamente, que é lá isso?mas bem, a pergunta a continuar, os filmes mostravam as mesmas cenas de hoje?

– eh! queres lá ver que havia filmes como as 50 sombras? – pergunta um deles simultâneamente trocista e atualizado .

– nem precisas. já viste a série Spartacus?- retorque o outro, com ar doutoral.

eu, aqui, ainda não tinha tido oportunidade de dizer nada. mas, entretanto, lá me deram momento de antena e, na minha infinita paciência, tentei dar-lhes uma explicação rápida sobre a época, tudo muito breve – a garotada desliga com facilidade – até que a série Spartucus, volta à liça. entreolham-se, riem-se nervosos, e tratam de acrescentar rapidamente que nunca, mas nunca nenhum deles viu qualquer episódio. juram ali a pés juntos, cruzes na boca, e eu espero que aquele ato descarado de puro fingimento termine, e remato:

– meus queridos meninos, aquela série, de facto, pelo que vi, tem mais mamas e rabos do que História.

eles espantam-se com a facilidade com que as palavras me saem da boca, e um deles timidamente acrescenta ao meu discurso:

-e também tem pipis!!!!!

e logo o outro termina em grande:

– e pilinhas também!

felizmente que nunca nenhum deles viu qualquer episódio.