desabafos em rodapé

“quem faz um filho, fá-lo por gosto”

escreveu-o ary dos santos, cantou-o simone de oliveira e eu apodero-me do alheio sem pudor.

24 de abril, corria o ano de 1992, pelas 4 e meia da madrugada tinha  ao meu lado um ser  que, mais que um número num quadro estatístico, era uma pessoa de 48 cm e três quilos mais uns gramitas a quem passei a chamar Filha. ali, naquela sala metálica, vestida de batas azuis, foi-me apresentada num cenário que consistia em  colocarem-nos os bebés no colo balbuciando frases feitas a que ninguém liga absolutamente nada. talvez seja conveniente lembrar que, naquele momento tão precioso, metade do corpo está dorido, e a cabeça não tem capacidade para assimilar aqueles instantes preciosos. também não foi fácil gerir tanto diálogo médico:

“- faça força! ai que não está a resultar!  o melhor será forceps !

– pois então, o quê????

-percebam meus senhores que, após nove meses num ambiente tão acolhedor, ninguém tem vontade de vir conhecer o mundo só porque alguns movimentos chamados contrações assim o exigem, e a medicina assim o explica. vamos então com calma. forceps? esqueçam lá isso que há aqui vontade de colaborar. colaboremos então. após momentos de participação muito elogiada pela equipa – só um néscio acredita na sinceridade daquelas palavras -, toda a gente sabe que há um léxico obrigatório e apócrifo naqueles momentos, por isso, vamos lá que se faz tarde. já passa das quatro da manhã, e a esta hora já costumo estar a dormir.

  recuperando  a lucidez: durante o processo de espera, uns meses antes, uma máquina com  ajuda de um gel frio e meloso, permitiu desfazer a curiosidade sobre quem vinha: azul, ou cor de rosa? numa cronologia não tão antiga assim,  preparavam-se as mulheres durante meses, num afã de tricot  e escolha de cores ordenadas pelo peso da tradição. depois havia as cores neutras: amarelo e verde-água que permitiam algum escape à ditadura cromática pré-natal.

fugindo desse cenário, aconteceu estar ali ao meu lado enrolada num preparo quentinho. e eu  a reparar no desenho das mãos, fixando aquele rosto que cabia na palma da mão, olhando aquele corpo que respirava presente e pedia futuro. um gosto adocicado apoderou-se do meu palato; era o sabor da palavra Mãe. comecei a saborear aquele paladar novo e fiquei inquieta; se calhar não estava preparada para aquela mistura de sabores que me assolaram de forma abrupta. aquela leitura; tudo muito teórico, aqueles parágrafos que constavam em livros muito técnicos, não passavam de relatos que passei a considerar avulsos. se calhar precipitara-me a pensar que era capaz de juntar tanta peça naquele tabuleiro de xadrez em que me vi transformada. naquele jogo intenso era necessário preparar o mundo; o meu mundo interior para aquela chegada carregada de um perfume inebriante que ameaçava toldar-me o raciocínio e, atirar-me para um abismo de emoções demasiado perigoso pois não deixava margem no imediato, para pensar objetivamente.

depois rolou o ponteiro do relógio, fundiram-se meses e anos, uma amálgama de acontecimentos incorporaram-se, e hoje, com 23 anos, tenho o futuro cá em casa. só não chegou numa cegonha diretamente de paris.

parabéns, Filha.

24 de abril de 2015

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28 thoughts on ““quem faz um filho, fá-lo por gosto””

  1. (Refazendo :))
    Parabéns (também) à mãe!
    Muitas felicidades, muitos anos de vida! 🙂
    Muita, muita saúde.
    E um dia feliz, um ano feliz, um futuro bonito.
    Beijo grande às duas ❤ ❤

  2. Que lindo! 🙂
    Muitos parabéns à filhota e à mãe querida que é e será sempre o seu porto de abrigo, não tenho a menor dúvida!
    Um grande VIVA às duas!
    Beijinhos, muitos carinhos e todos os miminhos, a que ambas têm direito!

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