desabafos em rodapé

relato que incorpora burros durante as férias

O animal supra citado faz parte do meu universo infanto-juvenil, quando há muitos anos passava férias numa aldeia da Beira Alta. Assim, esse mamífero quadrúpede, também conhecido por asno, concedeu-me momentos de grande satisfação, de todas as vezes que o primo R. fazia  questão de me proporcionar pequenos passeios pelas ruas da aldeia em montada nobre e altiva. E lá ia eu, num jumento de cor acastanhada, a inchar de orgulho, imaginado-me do alto dos meus nove/dez anos praticamente uma amazona, daquelas que conhecia dos filmes a preto  e branco das tardes de domingo. A volta demorava bem um quarto de hora para cima, outro tanto para baixo. Ao passar junto ao mercado, um  largo de chão de terra batida, – onde, a cada última quinta-feira de cada mês, se encontravam feirantes vindos de todas as redondezas -, aí, a postura era mesmo de uma profissional, pois àquela hora da tarde, sentavam-se os anciãos  que tudo observavam, e eu não ia fazer má figura.
E assim corriam os dias nesta aldeola  perdida entre o granito que a cercava, de costas voltada para as hortas, vinhas e pinhais que se estendiam até ao rio que lá ao fundo rumorejava,  à espera dos “turistas de ocasião”, e das trouxas de roupa que haveriam de sair dali alvas como a neve, sem ajuda de lixívia.
Não havia estranhos à aldeia, porque a aldeia vivia dos naturais, e dos seus muitos e queridos emigrantes que voltavam em cada agosto cada vez mais “oui, trés bien , ça va, pourquoi non?!“, e de resto, também não se fazia publicidade à vida rude do campo.
Mas hoje, com tanta  urbanidade entranhada nos poros de cada um de nós, verificamos a necessidade da existência de projetos turísticos com objetivos que incluem dar nova vida a localidades esquecidas, e é aqui que entra a personagem principal deste relato: o burro. Hoje, estes jumentos dão-se a conhecer em percursos ditos ecológicos, onde a população citadina, chique e urbana, vive experiências diferentes das costumeiras. Tivesse eu agora a quantidade de Equus africanus asinus que abundavam na época naquela aldeia, e tinha negócio assegurado. Podia muito bem ter feito um estudo de mercado, em vez de andar a dar voltas ao mercado montada numa cavalgadura.
Neste momento não sei quem terá mais direito ao epíteto a negrito.
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10 thoughts on “relato que incorpora burros durante as férias”

  1. Pois sim Mia…
    No próximo sábado em vez das tais voltas ao mercado, contamos consigo no tal almoço nortenho, para colocarmos desabafos em dia… Até lá!

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