desabafos em rodapé

só para dizer que tenho saudades

da minha infância até aos sete anos. Do meu baloiço que pendia de uma espécie de pérgola que não era seguramente elegante ou cuidada na sua estética. As cordas que o seguravam eram colocadas assim que o bom tempo despontava, e era tão meu, só meu. As brincadeiras eram apenas partilhadas com dois vizinhos, dois rapazes que percebiam a minha competência em apanhar ladrões, saltar muros e fazer grandes correrias. As meninas vizinhas, muito femininas, cheias de trólórós, carregadas de bonecas, berços e todo um conjunto de tralha que precisavam para brincarem às casinhas (desconheço se se terão tornado verdadeiras fadas do lar com tanto treino antecipado), lá estavam sempre atentas, não fosse aparecer o terror das seus tempos lúdicos: eu! Eu era boazinha, mas uma vez com bonecas ao redor, gostava de me aproximar só para cumprimentar. Elas acediam à minha gentileza, e deixavam-me pegar numa boneca de modo a que eu observasse, me despachasse e as deixasse em paz. Elas tinham razão em temer  a minha aproximação, pois sempre que mirava um objeto de culto daquela natureza, invariavelmente, ficava com um braço ou perna na mão. Depois era uma choradeira. Eu ficava ligeiramente constrangida, e logo a seguir retirava-me daquele lugar pejado de carpideiras e ia saltar um ou outro muro, pois tínhamos tido notícias de mais um assalto perigoso, e nós, vigilantes, tínhamos de atuar. Para descansar das fadigas, o meu baloiço esperava-me, e era tão obediente. Naquele movimento de sobe e desce, todo um mundo de infância feliz e despreocupada. Que saudades.

BALOIÇO

mais ou menos isto. não possuo qualquer registo fotográfico desta minha existência. (com mudanças perderam-se memórias registadas em película).

imagem 

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27 thoughts on “só para dizer que tenho saudades”

  1. Eu também ando assim, por estes dias. Felizmente que, para mim, Junho já acabou anteontem.
    Ontem andei a recolher “sinais” da minha infância, para pôr num post. As nossas marcas 🙂
    (Pirata, Regina, Toddy…)
    Olha, querida, um dia feliz.
    E um beijinho 🙂

  2. Todos temos estes lugares do passado retratos em objetos que ficam na nossa memória. E eu fui muito assim como tu: uma rapariga de saltar muros e de, muitas vezes, não entender esse mundo só de bonecas. Aprendi muita coisa a apanhar abelhas e aranhas com frascos! Beijinhos
    Patrícia

  3. Ainda acho que as memórias mais queridas são aquelas que sabemos que não temos em mais lado nenhum que na nossa memória – e nas dos nossos: as partilhadas são tão boas também.

    Eu não tinha baloiço, não tinha essa sorte. Mas lembro-de de lugares e brincadeiras tão queridos para mim que nunca conseguirei transmitir e isso às vezes entristece-me.

    1. Pec, o baloiço era um pormenor, porque o que eu mais gostava era d ebrincar na rua. Éramos o trio maravilha; eu, o João e o Francisco. Nunca mais soube deles, mas não esqueço.
      🙂

  4. Felizes essas memórias! Assim como as dos cheiros e das músicas.

    Ainda hoje há certos cremes de corpo que me recordam as férias em família, certos cheiros de comida que me lembrar a minha avó e músicas que me lembram pessoas 🙂

  5. Mia, em casa dos meus pais existe um baloiço que o meu pai construiu de raíz para nós (filhas)… Ainda hoje está de pé e serve muitas vezes para o meu pai embalar o neto ao colo 🙂
    O meu pai também fez um lago com uma argola de cimento daquelas dos poços, revestiu-o todo e colocou um chuveiro para as filhas se deliciarem com uns bons banhos! O meu pai tem jeito para estas coisas mas ficarei sempre grata porque estas pequenas coisas expressam o amor que os pais teem pelos filhos e isto deixa-me a pensar naqueles filhos que maltratam os pais depois de uma vida inteira a fazerem tudo para o seu bem estar e teem de troca uma mão cheia de nada 😦
    Só peço que Deus me ilumine para que eu nunca tenha a coragem de fazer coisas que vejo fazer…
    Peço desculpa pelo longo comentário, mas a Mia num texto consegue mexer-me com os sentimentos e com as lembranças tão boas da infância 🙂 Obrigada!
    Um dia mostro-lhe as fotos 🙂

    1. Um grande beijinho, Joana.Eu já não tenho o meu Pai para recordar estes momentos. Precisamente quando eu tinha sete anos deixou-me por conta de uma leucemia. Por mais anos que passem, não me passa!
      Mia

      1. Entendo Mia… Nunca passa! Mas pode guardar as boas memórias do seu pai no coração para sempre e isso ninguém lhas tira. Beijinhos grandes***

  6. MIA…agora deste cabo de mim com este post o recordar da infância e as saudades de um tempo que não volta! POrtanto minha querida em frente marche!!!!!! Vive o que tens e esquece o que tiveste! Saudosismos???? Nã!!!!!! estou a ficar cansado do que sempre sonhei ter e não encontro….
    Bolas MIa, não me posso ir embora sem te deixar um reparo… não se atira o pau ao gato!!!!! tadinho!!!!! o bichano não faz mal nenhum!!!!!
    Beijinhos, MIa

    1. 1- O recordar da minha infância faz-me bem, pois estas saudades lembram um tempo que já não volta, eu sei, mas transportam-me a uma época muito feliz, e isso consola-me em momentos mais “baixinhos”;
      2- O gato é que manda, eu sou contra a violência, mas ando com vontade de atirar o pau em alguém, lá isso ando, e não é ao gato.
      beijinhos,
      Mia

  7. Como tu, tenho saudades da minha infância, principalmente a passada em Luanda, pois dos 2 aos 7 passei-a em Macau e aí limitávamos a brincar no quintal das casas dos oficiais , sempre com alguém por perto a vigiar-nos.
    Em Luanda tínhamos um baloiço como o da imagem , no quintal que era divido por 3 irmãs e 1 irmão Tínhamos também uma casinha feita numa árvore , onde brincávamos com alguns vizinhos.

    Fizeste-me sonhar…

    Beijinhos.

  8. Eu cresci em Angola de modo que nas minhas brincadeiras entrava a magia feminina e o encanto masculino…um pouco de cada e uma liberdade que atualmente poucas crianças usufruem! Bj

  9. Brinquei tanto na rua com a garotada da vizinhança, sem pressas, sem perigos, sem responsabilidades. Memórias que ficam para sempre e nos trazem saudade.. Abraço Mia

    1. Uva, boa noite. Um baloiço, um sobe desce… haverá alguma coisa genuinamente mais fantástica? É possível que sim, mas agora, isso não interessa nada.
      Beijinho,
      Mia

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