desabafos em rodapé

histórias da minha rua

A rua estava ali muito paradinha feita de casas. quintais, e pessoas. Era uma rua nova para a miúda de olhos azuis acabada de poisar. Chegara ali, empurrada por um acontecimento nefasto… dizia-se que carregava consigo uma história triste. Comentava-se que chegava ausente de pai, cuja morte se anunciara há escassos três meses, e que se tinha feito cumprir num prazo dolorosamente curto. Confirmava-se. Mas era imperioso olhar em frente. Iniciou-se  um ritual de aproximação às gentes pequenas que por lá moravam. A avaliar pelo tamanho, era quase certo que andariam pela mesma idade, daquela que, parecia à primeira vista, uma forasteira. A aproximação deu-se devagar, cautelosa, mas sem camuflagem. Mastigando as palavras lentamente, e adotando uma estratégia simples, ouviu-se dizer: “também posso brincar?”. “Podes.” E naquela resposta estava aberto um mundo de possibilidades, pois pude brincar naquele dia, e nos outros, e em todos os  que se seguiram. Naquela rua, com nome de um filho de D. João I,  nessa rua,  as histórias sucediam-se, mesmo que nada fizéssemos para que tal acontecesse. As histórias gostam de surpreender. É preciso é estar com atenção, e apanhá-las no momento certo.  

Minha mãe dá licença? Quantos passos?

E lá vinha uma história à volta dos avanços e recuos que aquela brincadeira proporcionava. Ora zangas, ora choros, ora abraços alargados a sorrisos. Se calhar, ainda conto aqui algumas.

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desta rua, saltava-se para a minha. quem ia em frente, virava à primeira, à direita.

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31 thoughts on “histórias da minha rua”

  1. Oh Mia, que texto tão lindo mas com uma carga emocional intensa para uma menina de olhos azuis de tenra idade… A vida por vezes é demasiadamente injusta, mas temos que ultrapassar as dificuldades por mais difíceis que elas sejam… Custa, mas consegue-se!
    Posso então ir espreitar na 1ª à direita??? 🙂
    Beijinhos e boa quarta-feira***

    1. Olá , Joana,
      Quando cheguei a esta rua, a minha primeira infância terminara. Outra era se adivinhava. E o novelo que envolvia aquela mudança desenrolou-se.
      Beijinhos,
      Mia

  2. Já arranjei uma cadeirinha, e estou sentada, à espera de “ouvir” tudo.
    É a menina dos olhos azuis que vai contar as histórias da rua dela, não é?
    🙂
    Beijinho, Mia.
    (Não, dois beijinhos. Um por cada olho azul)

  3. “E lá vinha uma história à volta dos avanços e recuos que aquela brincadeira proporcionava. Ora zangas, ora choros, ora abraços alargados a sorrisos”. É curioso como as brincadeiras de criança adivinhava a posterior seriedade da vida na fase adulta… 😉

  4. Adoro recordar as brincadeiras de rua.

    Brinquei muito em ruas como essa, largas, tranquilas e repletas de risos.

    Vou adorar conhecer um pouquinho de sua infância feliz!

    beijinhos, Mia,

    tenha um dia bem bonito!

    Lígia e =^.^=

  5. Querida amiga dos olhos azuis que um dia foi menina!
    Numa rua cujo nome é de um filho de D João I
    Rei legítimo, filho bastardo mas uma máquina de fazer filhos
    Em que doze chega a ser dose, tudo para ser rima!
    Tuas memórias levam-me ao encanto do teu cheiro
    Quando perfumada nos garotos geravas grandes sarilhos!
    Num aroma feromónico que a todos nos aproxima,
    Sinto que nem aí consegui ser o amigo primeiro
    Mas no conjunto dessa amizade, pura, verdadeira de fedelhos
    Resta-me daquelas aulas de uma inocente anatomia
    Em que na história da rua, nas lágrimas ou nos abraços
    Estava um sorriso verdadeiro que era o teu… amiga MIA!

    Beijinhos num mar de recordações***

  6. Este post encheu-me o coração. Também eu tenho esta ligação a lugares. Eu que tantas vezes andei a saltar de cidade em cidade. 🙂

  7. Que lindoooooooooooooo. Conta mais. Adoro ouvir histórias de infancia.
    Essa rua é tão calminha. Gostava que fosse minha. E parece-me familiar, não sei…

  8. Que texto tão bonito, Mia. Mas a frase que me suou familiar e que tantas recordações “de rua” me trouxe foi: “também posso brincar?”. Será que os miúdos ainda fazem essa pergunta, hoje? Beijinhos e um ótimo fim de semana.

    1. OL+a Val, boa noite,
      Obrigada pela amabilidade. De facto, não sei se as crianças, hoje, ainda têm toda esta vivência, mas eu acho que, bem lá no fundo, ainda há mundo muito bom, por aqui.
      Beijinhos,
      Mia

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