desabafos em rodapé

senhor doutor

Bom dia, eu estou aqui à sua frente e  ainda nem abri a boca. Já me sento, obrigada. É que, eu só gosto de falar olhos nos olhos, e, estando o senhor já sentado aquando da minha entrada, mal parecia olhar de cima do meu metro  e sessenta e cinco. Como está? Passou bem?  Sabe, assim nessa posição, parece medir, sei lá, vendo bem, o senhor é um calmeirão. Ora, o que me traz aqui, não é um assunto por aí além, o que eu preciso mesmo, é de uma receita onde venha tudo explicadinho, para lá na farmácia me trazerem o que preciso para a tiróide e para a hipertensão. Sim, sim,  são maleitas de há muito, sabe lá… agora,  que já não vou para nova, tenho de ter mais cuidado, mas qual quê? Tenho dias que é uma desgraça. Eu bem tento afastar-me do pão, do chocolate, e outros produtos virais que vivem na minha despensa, mas a carne é fraca, e uma tentação assim consumada, às vezes, parece um ato de rebeldia tendo em conta : “quinoas” “bulgures” e “tofus”, aos quais nos havíamos de habituar para viver para lá dos cem. Mas, diga-me com toda a honestidade senhor doutor: valerá a pena viver tanto tempo? Isto da Grécia está ruim, dizem que a China encerrou no vermelho, a Rússia tem lá as suas coisas, os americanos gostam de entrar em casa de toda a gente, mesmo sem serem convidados…

O futuro a Deus pertence, claro que já a minha avó o dizia, mas mesmo assim, ela que nunca acreditou que o homem tivesse ido à Lua, como lhe ia explicar isto dos drones? Está confuso com o meu discurso? Até eu, que vinha só por conta de dois medicamentozinhos. Mas sempre lhe digo, médicos bons, são aqueles dos filmes e das séries. Aquilo é que é gente despachada. Decidida. Sempre a comparar casos e a resolver tudo depois de uma aplicação de epinefrina que, não sei o que seja, mas deve fazer um bem desgraçado. É vê-los a ressuscitar… eles entubam, eles pegam no desfibrilador e depois dizem uma palavra lá no inglês deles que, ao doente, até lhe saltam os dentes do siso, mesmo que não os tenham… ah, o que eu gosto daquele movimento. E os nomes dos remédios com doses apuradas? Tudo tão certinho. No final de quase 60 minutos aviaram pr’ali casos – alguns bem bicudos-, que é um gosto ver. E ainda têm tempo para andar de namoro uns com os outros. Os americanos queixam-se de barriga cheia. Com médicos daqueles, a nós, bastava-nos um por piso em qualquer hospital de referência. Os nossos, uma vez excedentários, exportávamo-los para compensar o défice. Mas que quer? A mim, ninguém me liga! A receita? Ah, obrigada. Até uma próxima.

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16 thoughts on “senhor doutor”

  1. Amei, amei, amei o seu texto Mia…
    Não o facto dos remédios mas a história toda envolvente 🙂
    Ah, e eu que apesar de achar irreal sou uma viciada nessas séries americanas de médicos!
    Beijinhos e boa Quinta-feira***

  2. Querida Mia! Neste desabafo descreveu melhor do que ninguém aquilo que se passa nos consultórios que visitamos a miúde:) Adorei!!
    Beijinho!
    Manuela

    1. És tu, sou eu, e mais um ror de pessoas… 🙂 E ainda faltou mencionar, os sintomas que vemos na internet, os quais acumulamos, com outros que lemos na Reader’s Digest! 🙂
      Beijinho LP.

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