desabafos em rodapé

histórias da minha rua/episódio um

aviso prévio: se não gosta de histórias passadas em ruas com cães, então, não leia.

Na minha rua muito quieta, com casas, pessoas e quintais, havia cães. Pelo menos três. Mas hoje, o rei dos parágrafos, chama-se  Polly. Se disser que era um Dachshund, nome original da raça alemã, ou Teckel, como dizem os ingleses parece um snob de nariz empinado. Prefiro Baixote, um Salsicha, por assim dizer; é mais íntimo.

Manhoso, de latido fácil, era repartido por nós, e pela sua dona legítima. Era o terror dos automobilista.

Esta rua onde cresci, tinha na sua constituição alguma estreiteza; não passavam dois carros ao mesmo tempo em sentido contrário. Alguém tinha que ceder e fazer marcha atrás. Quem não tinha por hábito ceder, era o nosso protagonista. Caso lhe desse na real gana de sair do seu quintal, e vir estender-se no meio da rua, desgraçado do automobilista que o apanhasse como adversário. É que este real quadrúpede carnívoro digitígrado e doméstico (está assim no priberam) não se erguia. Começava então um jogo de forças:

-apitadela número um: nada. Movimento nulo por parte do animal de quatro patas.

-apitadela número dois: nada. Repetição do movimento acima descrito.

Nós:  quase tantos como  a miudagem de Aniki Bobo de Manuel de Oliveira, fazíamos assim:

Caso fôssemos testemunhas deste espetáculo e conhecêssemos a pessoa que estava dentro do carro, bastava chamá-lo, e, muito a custo, lá se levantava, e acabava por sair. Se não conhecêssemos a pessoa, então, um nadinha de sadismo, e esperávamos para ver quem ganhava. Geralmente, o resultado era sempre favorável ao nosso salsicha. Muitos condutores passaram a evitar  entrar por aquela rua. Preferiam dar a volta, O bicho tinha já a sua reputação construída.

Outro alvo muito querido deste baixote. O Carteiro? Claro, mas isso é demasiado óbvio e pouco edificante.

Não. aqui o rapaz, tinha muito gosto em ladrar às canelas de alguma varina que, de canasta à cabeça, vinha perdida da Figueira da Foz, e tinha saído do mercado para despachar as últimas guelras -entretanto sem  vida-, que ainda tinha por ali a pairar. Era o delírio para ele. Um tormento para elas. Mas que querem? O animal era sensível ao grito agudo do pregão.

E para terminar este relato dos episódios  de tão grande personagem, falta só mencionar a carroça da Dona Palmira. Esta senhora vendia leite ao domícilio. Não era leite de pacote. Não, ali nos idos de oitenta, até chegarem as diretivas da CEE, a Dona Palmira, que tinha vacas não sei bem onde, trazia o leite muito bem acondicionado, e vendia-o  a quem não se queria entregar ao mundo das embalagens que tudo invadia.

O Polly agradecia, pois aquele burro merecia uns bons latidos, ali, junto aos cascos. Valeu-lhe a ele, baixote sem vergonha, o outro,  ser um burro paciente, pois podia muito bem ter sido protagonista de um real coice, que lhe podia ter deixado os maxilares em miserável estado. Polly, onde quer que estejas, perdoa-me as inconfidências, mas tenho mais para contar. Tu mereces.

polly

não tenho nenhum registo fotográfico do real protagonista. mas era isto. sem tirar nem pôr.

Advertisements

11 thoughts on “histórias da minha rua/episódio um”

  1. Eu confesso que sou um pouco medricas com cães… Talvez por ter apanhado grandes sustos à conta deles!!! Mas esse salsicha parecia-me bastante sabichão 🙂 🙂 🙂

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s