desabafos em rodapé

A revolta da Baguette

Vivianne Baguette tinha nascido no seio de uma família tradicional parisiense. O pai, membro honorário da Irmandade da Farinha de Mistura, era um elemento muito respeitado na comunidade. Experimentava, naquele dia, um dos piores momentos da sua breve vida. Sua filha havia comunicado em tom solene, estar apaixonada por um pão de forma. A mãe, que se orgulhava  da forma como os seus antepassados tinham sido sistematicamente transportados debaixo de um sovaco –  muitas vezes ao som das músicas de Edith Piaf, Adamo ou Mireille Mathieu – não suportava a ideia de ter um genro que produzisse fatias quadradas.

Vivianne Baguette, essa, definhava a olhos vistos. Se tinha brotado crocante do forno que a ultimou, parecia, agora, uma pasta mole sem consistência ou sabor. Culta, sabia bem das histórias malfadadas de Romeu e Julieta, de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque (sem esquecer o papel de Mariana), ou mesmo de Tristão e Isolda. Esta última, tinha-lhe sido contada por um tio, que  quase serviu de lanche a dois técnicos de som na Ópera de Paris.

Perante o desgosto que a consumia, e, após ter lido um livro de autoajuda, arribou forças. Cometeu a sua última loucura: amancebou-se  com um croissant de massa brioche, acabando ambos, num pires de porcelana Limoges barrados com pura manteiga de vaca.

  • Para quem pensa que é tudo farinha do mesmo saco, tem neste episódio, um exemplo acabado que nem tudo o que parece é. (observação aleatória para encher espaço)
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19 thoughts on “A revolta da Baguette”

  1. 😀
    Simplesmente espetacular!
    Dúvida: considerando que o croissant tem o formato dum par de “chifres” e que ele foi barrado com pura manteiga de “vaca”, posso presumir que, no relato, há clara sinalização psicanalítica de que Vivianne o trairá? (Com o pão de forma, logicamente.)

      1. Mérito de Freud: o inconsciente de Vivianne se manifestou nas entrelinhas de seu relato. 🙂

  2. A panificação nunca mais será a mesma. Aqui no Brasil, ela seria apenas mais uma Vivianne Bengala.
    Um beijo enorme e parabéns pela criatividade, minha querida Mia.

  3. A minha alma está parva com a engenhisse desta história. Mas, o final é tal e qual O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Deu-me esperança na baguette a levedar com o pão de forma, e afinal acabou assim, na manteiga com um croissant. Hum, tenho fome. 🙂

  4. Carina, quem me dera a genialidade do autor de ” O Gato malhado…”mas, concedo que nós somos influenciáveis pelo que lemos, e, por vezes, inconscientemente, os nossos parágrafos têm marcas! 🙂

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