desabafos em rodapé

pedi, e foi-me concedido.

estava a ver que ninguém me compreendia. a luz veio até mim, através das palavras de Linda Blue.

PARÁBOLA DAS MÃOS

Era uma vez uma mulher que, embora não fosse cozinheira profissional, cozinhava sempre. Nunca havia sido ensinada nas artes culinárias, não gostava especialmente de cozinhar, mas, porque havia que se alimentar, a si e à sua grande família, fazia-o com a maior dedicação que as suas pouco hábeis mãos conseguiam alcançar. Apesar da evidente falta de dotes para o ofício, por amor ou por não terem termo de comparação (que é o que, muitas vezes, reforça o amor), a verdade é que o resultado que apresentava, diariamente, à mesa, era alvo de aplausos e ovações várias, mãos unidas em batidas sucessivas, homenageando as exímias mãos da mulher, as mãos da fada que produziam semelhantes iguarias, a cozinheira de improviso, mas de mão cheia que, dia após dia, se revelava naqueles pratos. 
A mulher recebeu, então, o cognome de A melhor cozinheira do mundo.
Mas um dia perdeu a mão: os condimentos deixaram de se ajustar aos paladares; os pratos deixaram de saber bem; as tentativas de variação e apuramento revelaram-se goradas. Os cozinhados d’ A melhor cozinheira do mundo perderam o saber, perderam o sabor, e, com eles, perderam o melhor tempero, que é o amor.
Mudos os aplausos, destituída do título d’ A melhor, a mulher perdeu as duas mãos: caíram por desuso, como qualquer corpo estranho, rejeitado pelo organismo.
— Fim —
OBRIGADA , LINDA BLUE.
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20 thoughts on “pedi, e foi-me concedido.”

  1. Acho que o tom triste e realista desta parábola serve como exemplo para todos nós sabermos lidar com as perdas em nossa vida.
    Um grande beijo e uma ótima noite, Mia querida.
    Alex

  2. Eu gostei dessa parábola. Gosto de tudo o que leva à verdade. E me veio no ato a figura de um escritor de sucesso que, depois de famoso, só escreve porcaria. Esse é o poder da parábola. Faz refletir. Beijo, querida Mia.

    Waldir.

  3. Hum… Esqueceu-se de contar que, agora que a mulher perdeu as mãos para o tempero, resolveu finalmente sair à descoberta de novas iguarias pelos restaurantes da cidade. Afinal, tinha chegado a vez de alguém cozinhar para ela. 😉 Beijossss, querida Mia 🙂

    1. Miss Lu, este texto foi escrito por Linda Blue, blog que eu sigo e muito estimo, para além de outros dos quais sou freguesa. Encontrei nestas palavras, a minha realidade. E está tão bem explanada.
      A sua interpretação agrada-me.
      Beijinhos,
      Mia

      1. Mia, gosto muito do texto, mas (sou incorrigível) gosto tanto de finais felizes… Não resisti a imaginá-lo mais animado! 😀 Beijinhos 🙂

  4. Minha avó fazia ótimos pães caseiros, molhos pra cachorro quente, sopas, massas, tudo e mais um pouco. Hoje em dia ela não faz mais uma panela de arroz saborosa, desde que meu avô, seu companheiro, se foi. E pensar que as pessoas começam e terminam de cozinhar bem por causa do amor…
    Beijos Mia 🙂

    1. Miss Smile, assim que eu tiver um pouquinho mais de horas de permanência num certo salão, onde o chá é bebida nobre e obrigatória – não sei se conhece, 😀 – também sou capaz de fazer um pedido semelhante. Para já, parece-me ser uma atitude um pouco atrevida e precoce!
      Um beijinho,
      Mia

  5. Se disser que olhos lacrimados na leitura podem ocorrer, todos me perguntariam do porque, então abro meu sorriso e falo ao vento do sentir na escrita que pode ser para muitos algo pesado, triste, mas nos serve de norteio ao real. Falar de beleza no texto seria pouco, prefiro respirá-lo como aprendizado ou como conselho, seguir em frente e saber que até nas escritas esbarramos em espelhos. ❤

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