coisas minhas

o homem girafa

 Generoso, como todos os do seu povo. De bom trato, e extremamente agradável. Uma criança adorável.

Contudo, tinha por hábito andar sempre a espreitar por cima de todo, e qualquer muro. Dizia que gostava de espreitar para lá do óbvio. Ele não sabia bem onde ficava tal lugar, mas já tinha ouvido falar bastas vezes do mesmo. Ficou curioso. E todos os dia aumentava a sua curiosidade, mas também a dificuldade em lá chegar. Sem se dar conta, os muros que se interpunham, eram cada vez mais altos para tal observação. E, sem dar por isso, esticava o pescoço que, começou naturalmente,  a ficar esguio e mais elevado, por comparação aos dos seus vizinhos.

De repente, já todos se tinham esquecido do seu nome de batismo, para lhe chamarem o homem-girafa com hífen. Quando jovem imberbe, soube por panfletos distribuídos porta a porta, que a Marinha Real estava a recrutar voluntários para os seus submarinos. Alistou-se.

Passou nos testes. Pelas características físicas que apresentava; pescoço alto, esguio,  rosto pequeno onde só os olhos se destacavam, foi direcionado para a sala do Periscópio –  não para trabalhar com o periscópio – antes, para ser, ele mesmo, O Periscópio. Os seus comandantes estavam confiantes da sua escolha. Era necessário ver para lá do óbvio.

Colocou-se o problema de respirar debaixo de água. Numa intervenção cirúrgica sem precedentes, removeram-lhe os pulmões e foi transplantado com guelras frescas de uma espécie marinha conhecida por tubarão de sete guelras.

Dedicou-se com tal afinco à sua missão que, ao fim de 5 anos de serviço, foi dispensado com louvor.  Os ocupantes daquele submarino, não só tinham atravessado a linha do horizonte, como agora, todos viam claramente, para lá do óbvio.Recebeu muitas medalhas.  Foi feito Comendador.

Reformado. O que fazer, agora?

Agora trabalha para um hipermercado. Dispensaram-se as câmaras de vigilância.

Continuando com guelras – habitou-se mesmo a elas, já não as dispensa- vive o seu dia a dia, com  a cabeça enfiada num garrafão de água mineral  com PH neutro.

boneco

obrigada e bom dia.

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8 thoughts on “o homem girafa”

  1. Gostei muito. Lembrou-me outro livro que gosto muito, “Histórias de cronópios e de famas”, de Cortazar.

    1. Obrigada, Laércio.É uma honra o que escreveu sobre um texto que apenas tem como base uma cabeça que não “regula lá muito bem” – a minha. 😀
      Grande abraço,
      Mia

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