coisas da vida, desabafos em rodapé

“colhe o dia, porque és ele”

Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —

A segurança nossa? Este é o dia,

Esta é a hora, este o momento, isto

É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora

Que nos confessa nulos. No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos. Colhe

O dia, porque és ele.

Ricardo Reis

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coisas minhas, desabafos em rodapé

não concordo com Honoré de Balzac

“Não há dor que o sono não consiga vencer.”

atribui-se esta frase a Honoré de Balzac. então, um homem deste calibre não sabe, que uma vez a dor instalada, não há sono que a consiga vencer? para conseguir que ele venha, às vezes, só com uma ajudinha comprada na farmácia, caso contrário, não vamos lá com facilidade.

é por isso que evito citações. a não ser que seja eu a inventá-las.

coisas minhas, desabafos em rodapé

se eu morasse numa estante

havia de ser numa cheia de livros. livros grossos ou magrinhos, com desenhos, figuras e letras. letras grandes, porque podiam muito bem servir de abrigo em casos extremos. os casos extremos, seriam sempre, aqueles em que as páginas de certos livros me barrariam a entrada, por não possuir capacidade de interpretar figuras de estilo. aí, teria de me esconder, para evitar que um caso desses fosse reportado, por exemplo, a uma gramática, ou a um dicionário abelhudo que tutelasse a família dos sinónimos e antónimos . não havia de dar a minha morada a ninguém. viveria clandestina, para poder escapar às grandes entidades reguladoras, ou a comissões de inquérito constituídas pelas letras miudinhas, pequeninas, picuinhas, cheias de renhónhós, prontas para chatear o bicho do ouvido. na minha clandestinidade, usaria uma camuflagem peculiar: vestir-me-ia de folhas de jornal, e andaria sempre com o cabelo alvoroçado –  nem sei bem para quê- é só um pormenor para ajudar a compor.

papier-mache

mais ou menos isto, mas numa estante cá em baixo, que sofro de vertigens.

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