coisas minhas, desabafos em rodapé

o antunes era bom moço

o Antunes era bom moço. pena era aquela cabeça quadrada. nunca percebeu por que razão não se lhe arredondara como a todos seus vizinhos: os vizinhos de cima e os vizinhos de baixo. naquela aldeia era o único, era assim uma espécie de fenómeno. o mais enervante era ter aquela sensação de ter um pensamento quase a estoirar-lhe nos miolos e nada. não o conseguia levar a cabo, pois esbarrava-lhe nas esquinas da sua quadrada cabeça. morriam ali, pronto, sem contemplação, num suspiro pouco audível, pois já se vê  que, sendo pensamentos, os decibéis estavam-lhe vedados. de tanto pensar, e sem conseguir levar até ao fim nenhum esboço mental, cresceram-lhe os olhos. esses, de tão grandes e arredondados esbugalharam. tão arregalados os tinha, que não tardou que toda aldeia o conhecesse por Antunes o “ mais olhos que barriga”. coitado do Antunes, era bom moço.