coisas minhas, desabafos em rodapé

as rolas na minha janela

enquanto a água fustiga com força, todo o espaço aberto que vejo destes vidros que já gostavam de ver um Sol dinâmico, com vontade de aquecer alma e coração, duas rolas protegem-se deste banho forçado, no parapeito da minha janela. no entanto, bastou um movimento brusco, uma tentativa saloia de as captar rapidamente naquele enquadramento molhado e sombrio desta manhã tão chuvosa, e as  duas, em uníssono, bateram asas e voaram. mal deu tempo para lhes apreciar o volteio, de tão rápido que foi, numa tentativa, penso eu, de se recolherem num novo abrigo. deixei de as ver, e voltei ao teclado monótono, que hoje me vai dar música por muitas e boas horas. se me doerem as costas, há infinitos vídeos que ajudam a descomprimir, outros com a melhor receita de pão, bolos ou pudins cremosos, para além de receitas apenas com legumes, para evitar abusos…eu falei em rolas, não foi? onde a conversa já vai.

bom fim de semana, sem hífen.

eu gostava dos tracinhos no fim de semana. parece que o dividia melhor. isto do open space, às vezes, desorganiza. talvez fale nisto, noutra conversa. tanto posso ter vontade de falar no hífen, ou só no fim de semana, ou até do open space. tudo em aberto, portanto. também gosto de colocar palavras em itálico, mesmo que não seja preciso, mas só às vezes.

coisas minhas, desabafos em rodapé

um certo medo…

 um certo medo que, a par do distanciamento social, se comece a desenvolver um certo distanciamento emocional: números crescentes, imagens e testemunhos pungentes a rodos, até tenho medo que façam mais mal que bem; que anestesiem e nos levem a um virar costas apelidado de profilático, a bem da saúde mental: não quero ouvir, não quero saber, eu estou bem, eu estou bem…fechem as portas…

terça-feira, 31 de março, dia cinzento e pingudo

 

 

coisas da vida, coisas minhas, desabafos em rodapé

estou indecisa

apareceu-me um teste enviado por uma entidade que não conheço muito bem, a propor-me que escolhesse uma imagem escura, para perceber se eu sou psicopata. ainda hesitei: faço, não faço? mas depois, não fiz, porque sei que sou muito psicopata ao nível de querer esganar todos os irresponsáveis que por esse mundo desafiam aquilo que as pessoas mais esclarecidas recomendam. acho que fiz bem em não gastar tempo numa evidência que já sei que me assiste nestes casos mais agudos que a estupidez humana contempla. por estes dias há muito que fazer para nos mantermos mentalmente sãos, afinal, em casa, pelo menos por agora, não nos falta nada, – tomara que todos o pudessem assim afirmar – daí que não nos pareça tudo assim tão negro. há quem esteja a cuidar para que nós possamos beneficiar de um amanhã mais calmo. que chegue depressa, e não desesperemos.

fiquem bem.

coisas minhas, desabafos em rodapé

disparidades

preciso de fazer exercício. todos os dias penso estar apta a mexer-me mais, e prometo sempre que amanhã é que vai ser. nunca foi, desde segunda-feira até hoje. depois, culpas e remorsos, enquanto vasculho receitas saudáveis, para me penitenciar. a seguir vou à despensa buscar uma tirinha/snack, de uma marca muito biológica, com um sabor maravilhoso, e textura muito simpática, que dá vontade logo de repetir – mas não se pode- e penso que naquele descer e subir de escadas já vai um nadinha de alguma coisa. é de noite, e não pus em prática fosse o que fosse que ontem tenha pensado. inclusivamente, achei que podia pôr em prática o movimento:  # e o que fizeste, hoje? e era ver pra aí desabafos, que eu sei lá. mas depois, achei que me estava a meter na vida das pessoas e achei melhor recuar na intenção. recuei. de resto, vai-se andando.

boa noite.

coisas minhas, desabafos em rodapé

a senhora vai ralhar-me!

isto passou-se num sítio.

a loja, situada no outro lado do passeio por onde eu me deslocava, numa rua, que tanto pode ficar à nossa direita, como à nossa esquerda, tresandava a brilho e objetos para alindar dezembro caso nos apeteça, senão, ninguém leva a mal. entrei. as prateleiras, muito alinhadas e outras nem por isso, parece desarrumação, mas não é, exalavam cheiros e projetavam cores que cada um podia sentir à sua maneira, e eu resolvi sentir cá duma forma muito minha. fixei-me nuns globos, base de madeira e vidro redondinho a fazer de telhado.  os globos, tantos e de diferentes tamanhos com aqueles bonequinhos lá dentro muito sossegados e obedientes, estavam a pedir uma sacudidela. escolhi aleatoriamente. aproximei-me  e virei-o. se calhar, a senhora vai ralhar-me, pensava eu, enquanto manuseava aquele globo e via cair as partículas branquinhas, que estavam sossegadas lá naquele chão, rodeadas de um líquido muito transparente e que depois se entregavam em doce conluio, e os dois, o líquido e as partículas hipnotizavam e faziam parar o tempo, ali, só um bocadinho, é certo, mas mesmo assim, hipnotizava. e a senhora da loja? será que me vai ralhar se eu virar outra vez tudo de cabeça para baixo? e eu virei, de novo, numa atitude muito rebelde, subversiva, sim, que ali havia ordem que eu estava a desestabilizar, e não me ralei nada, e sabia que havia câmaras e alguém podia tentar um match, como nos filmes e séries policiais…um programa que gira a grande velocidade, muitos pontinhos, linhas e manchas muito percetíveis e quase de certeza a descobrirem a minha identidade criminosa, numa qualquer base de dados, onde eu constasse como “agitadora de globos só porque sim”, e logo a seguir um alerta de perigosidade sobre mim haveria de recair, e depois fui pagar uns castiçais muito prateados que retirei de uma outra prateleira também muito arrumadinha. quando saí, o globo ainda se ressentia dos movimentos a que foi sujeito. saí incólume.

coisas minhas, desabafos em rodapé

era princesa, mas tinha asas

-não! assim, era só mesmo uma fada!

-não, não, era mesmo princesa. tinha coroa!

-de certeza? não haverá dúvidas?

-nenhumas! princesa! com asas!

-seria então, princesa das fadas.

-seria.

-e tu acreditas?

-em quê?

-em princesas fadas.

-claro que sim,

-porquê?

– sei lá! talvez porque as asas levam, e quem for mais longe, eleva-se.

-isso é lá explicação.

-cada qual explica como sabe.

-ou como lhe convêm , na ignorância do que há de dizer.

– queres um scone?

-pode ser. e a geleia?

-não tenho, deve ter sido alguma fada qua a levou.

coisas minhas, desabafos em rodapé

dizem que chegou o verão

Ver para crer, como São Tomé. Eu e o ceticismo somos muito afeiçoados. Nem tudo o que o calendário afirma é verdade, e de resto, se eu estivesse estado atenta, tivesse feito registos, folhas excel, nesse frenesim que agora se vive por todo o lado, sem esquecermos as plataformas, todas muito importantes e sempre cheias de pressa para se sentirem preenchidas ( devem vir cheias de complexos que só um bom psicanalista trataria), mas enfim, teria agora registos das temperaturas normais para a época, e podia compará-las entre o período em que o a estação do ano foi tratada com respeito, com “V grande”, em relação aos tempos que correm , onde foi reduzido ao “v pequeno”.  Este é o seu modo de vingança.

-Querem verão? Façam-me Verão, e assim entraremos em acordo.

(possível monólogo de uma estação do ano, que não se compadece com esta redução da sua importância. Tirando a questão das alterações climáticas – há quem diga que são uma invenção dos chineses- o Verão, merecia, tal como os restantes companheiros, nunca terem sido reduzidos no tamanho da letra.) Perdeu-se alguma grandeza, e de quando em vez, ganha-se em exagero,  no domínio da transpiração, por exemplo. Também não havia necessidade.

coisas minhas, desabafos em rodapé

lá muito, há algum tempo,

era verão. tinha iniciado as lides aqui, em desabafos, e já num sofá cinzento. naquele dia, querendo produzir texto, atirei-me a um anúncio para que depois de supostamente escalpelizado, pudesse dizer de minha justiça. nesse dia, a minha pessoa estava zangada com a pátria. escrevi-o desta forma, vírgula, dois pontos:

Nós aqui temos tudo“; assim se diz num anúncio televisivo a uma marca portuguesa de cerveja. Este spot publicitário num segmento de tempo curtinho, lembra-nos tudo aquilo que temos de tão bom. Depois, acaba o intervalo, vêm as notícias…e pronto, acabou-se o estado de enlevo pela pátria.  A realidade entra-nos pelos olhos dentro. Não há marca de cerveja que nos valha nestas alturas.”Nós aqui temos tudo”! De facto, é verdade, mas falta-nos alguma coisa. Sei que sim, senão, não tínhamos chegado a este estado de coisas!

“este estado de coisas” fica à interpretação de cada um. a mim, parece-me que posso continuar zangada.  são vinte e três horas e onze minutos. boa noite e obrigada.