crónicas, desabafos em rodapé

ilusão, deceção…

estava eu a preparar-me para sair de casa, de modo a dirigir-me ao laboratório de análises clínicas -onde sou freguesa há bastante tempo-  quando sou confrontada com a ignorância do local onde terei guardado a requisição das ditas. segunda-feira, treze de março.

aflição, procura, imprecação, perdão, imprecações, finalmente achada, mais folgada, preparo-me para analisar o estado do tempo. do lado de lá – há um vidro duplo a separar-me do exterior- o Sol expande-se em toda a sua grandeza. do lado de cá, agradece-se o cenário. do lado de lá, parece haver um certo movimento nos ramos ainda nus das árvores do jardim, no entanto, não lhe é dedicada a atenção devida. abre-se a janela para sentir o pulso ao exterior. parece-me estar tudo bem. após envergar o que me parecia ser adequado para sair à rua- iria a pé- desci as escadas- dispensei o elevador- conselho da cardiologista que acato obedientemente- e, com tantos travessões no texto, acabei também eu, a atravessar a estrada.

num instante, um manto enriquecido com um brocado rico em alfinetadas certeiras, trazidas pelo vento, envolve-me e lança-me num desfazer da ilusão de um dia soalheiro e aconchegante. não passou de uma quimera. era agora o momento da deceção, e do arrepio também. termino com um provérbio retirado ao meu arquivo de invenções súbitas sem necessidade:

dia arrepiado, ao trabalho é consagrado.

(provérbio acabado de inventar, inspirado numa realidade minha)

coisas da vida, crónicas, desabafos em rodapé

o melhor presente do meu aniversário

foi na sexta-feira. 14 de outubro. eu avisei  que tinha esta mania de aniversariar a cada 365 dias.

o dia amanheceu bem. tudo nos conformes. nada de reclamações. fui trabalhar. trabalhei, trabalhei, e às onze e trinta dois minutos – já tinha trabalhado umas coisitas-  houve novidade: um caramelo que pedia para ser consumido, foi. depois é que foram elas. neste caso ele. ele, o dente, partiu-se todinho, mas tão todinho, que abriu uma cratera. chega de descrição. a visualização para quem é muito sensorial pode ser desastrosa. saí a correr do trabalho, mas só duas horas depois. cadeira do dentista. sim senhor, isto foi castigo. mas arranja-se. agora? não, minha querida senhora (eu, portanto), só depois das oito da noite. fui. saí  a correr, sem perceber como, agendei uma ecografia aos rins. e logo para este dia. corri. cheguei, identifique-me. paguei e esperei. entrei, lá veio aquela conversa de circunstância, o doutor tratou-me pelo meu primeiro nome, achei simpático, logo a seguir fui inundada por aquela ranhoca, e depois o aparelhinho em conexão com o visor passou por todo o lado, e à medida que calcorreava o meu exterior para se inteirar do meu interior, ouvia-se um ronco e a voz do doutor  a pedir-me para não respirar. pediu-me tantas vezes e durante tanto tempo, que julguei estar a fazer um teste para mergulhador sem botija. no fim, foi uma alegria. o médico estava radiante, disse temer muito aquele exame. há pessoas que são um pouco adiposas , outras pela idade, outras por não conseguirem suster  a respiração, estragam tudo. eu? eu fui maravilhosa. e tinha as artérias ótimas. sem defeito nenhum. acabámos na eurodisney sem eu perceber a razão. despedi-me eufórica. receava o resultado. afinal, tudo bem. saí. fui fazer um recado importante, aproveitei para comer, e depois o dente. nove horas da noite- já podia rir. mais ou menos. ri-me só um bocadinho. cá por dentro é que estava às gargalhadas: uma ecografia, o melhor presente que podia ter recebido. bem, não foi a ecografia, ecografia, foi mais o resultado.

FIM

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os cabelos de Monsieur Hollande

É assunto do dia. Assim é que eu gosto. Deixemos a seleção, o desporto medalhado e passemos já à trunfa de Monsieur Hollande. Instalou-se a polémica, devido ao salário auferido pelo seu cabeleireiro. Não percebo estes franceses; ainda ontem andavam em prantos por não terem ganho a taça, e já hoje alardeiam contra o presidente. Que voláteis, credo! Não são capazes de se manter fiéis a uma causa por muito tempo . Alors? Que é lá isso? Amofinarem-se, porque o Olivier ganha dez mil euros por mês? Que pelintras!

hollande

possível reação à noticia.

hollande 1

afastando polémicas. impecável.

imagens 

crónicas

já há três anos?

 Tem a certeza senhor Doutor? Não venho aqui ao Centro de Saúde há tanto tempo? Pergunta inútil, eu sei, agora está tudo registado no computador, pois é! Ora então o que me traz aqui, apesar do senhor ainda não me ter dito senão bom dia, é efetivamente mostrar uns exames que fiz, por conta de um pé inchado: o meu pé esquerdo. Por acaso até acho graça quando digo isto, porque me lembra um filme muito bom com o Daniel Day Lewis. O enredo do filme é que tem pouca graça, diga-se de passagem, mas que quer? Ocorrem-me assim estas coisas.

E então? Os examezinhos como estão? Já abriu todos com precisão cirúrgica e estou a sentir-me motivada para saber os resultados. Bom, até agora já leu tudo? Pena é que não me transmita o conteúdo da informação. Deixe lá, não se mace, vejo-o aí tão ocupado a recolher pormenores do que lhe trago.  Venho aqui entregá-los porque o médico da clínica onde fui deve ter-se reformado. Reforma era o que o doutor também queria,não era? Até eu! Mas ainda tenho muito que penar.

Por falar nisso, quer ver o meu calcanhar esquerdo? Ah!!! mostro-lho daqui!!!! Claro, claro, que disparate o meu, pensar  que queria ver melhor. Com certeza. Levanto o pé, arregaço  a calça, não preciso de tirar  a meia? Olha que bom. Também não me estava a apetecer nada desnudar-me desta maneira. Até ruborizo só de pensar que ia mostrar-lhe a minha canela tão delicada…

O doutor jovem que está aí à sua esquerda, já me sorriu duas vezes. Mas acho que aquilo foi um esgar nervoso, por perceber a velocidade a que preenche os dados no computador, e  o silêncio que se faz sentir neste gabinete. É que isto é uma consulta, não é um velório.  Não me pede para inspirar e expirar? Não digo 33? Ah! a tensãozinha vai-se tirar.  Sempre dou por bem empregues os meus cinco euros de taxa. Receita? Quero sim. O  meu número de telemóvel? Não deve ser para conversar, pois não? A avaliar por este mutismo. Sim, claro, agora as receitas são eletrónicas. Já sabia. Análises? Também faço? Não será demasiado esforço? Já acabou? Deixo a porta aberta? Não se constipe. Era uma maçada. Lá tinha de ir ao médico!

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crónica de”ninguém”

Um dia, estava eu muito sossegada, sentada num banquinho a comer pão com manteiga. À minha volta ecoavam frases feitas. Bem intencionadas e bem direcionadas. Quem quer que as tivesse cozinhado tinha acertado no tempero. Pelo menos, assim parecia. A que mais ouvia era: “Trabalha. Estuda. Um dia serás alguém.” Aquilo ficou-me. Então, também quis ser alguém.

Passou tempo e mais tempo e não havia meio de me parecer que já estivesse a ser alguém. Desde a escola primária aos estudos mais adiantados, nada. Tudo normal. Comecei a trabalhar, a mesma coisa. Começava a inquietar-me com este atraso. E se nunca chegasse a ser alguém? Vivia em pânico.

Mas, um dia tudo mudou. Fizeram-me Alguém. Foi por decreto. Comuniquei de imediato ao Mundo. Estava a ver que era ali que o Mundo se rendia a meus pés. Parecia mesmo. Afinal, verificou-se depois, eu estava mesmo a precisar era de óculos. Mas lá no bairro, na paróquia e no meu prédio era um orgulho terem-me entre eles. Bem feito pró Mundo que me ignorou! Só que não tardou que viessem as invejas. As macumbas. Sofri. E, num dia, sem dar conta, retiraram-me da lista dos “Alguéns”. Também por decreto. Agora era outra vez Ninguém. Fiquei a pensar no acontecido. Dias e dias de reflexão aturada e estuporada, acompanhada de bules e bules de chá de tília. Cheguei-me a uma estante e escolhi um livro de autoajuda. Li um parágrafo. Percebi tudo.

Afinal, quantos “Alguéns” há neste mundo? Tantos, que nem é bom falar. E “Ninguéns”? Pensei um bocadinho e enumerei os que conhecia: Ulisses, o Romeiro de Almeida Garret e, agora EU.

Toma, Mundo! Quem ri por último, ri melhor!