coisas minhas, desabafos em rodapé

é muito importante falar de sofás

pode parecer um assunto enfadonho e uma artimanha para apanhar leitores desprevenidos. pode sim, cada um julgará por si à posteriori, no entanto, parece-me que não é de todo desajeitado chamar o assunto à luz de uma terça-feira soalheira, quente para a estação. logo para começar, estou a escrever recostada nas almofadas do meu sofá cinzento. inerte, quedo e mudo, é um ouvinte a estimar. partilhamos momentos: ele mais circunspecto, eu mais aberta à palavra, ele mais reservado, eu a espraiar-me em aleluias ou lamentações. não se queixa, está cá sempre pronto para o que lhe trago todos os dias. tem dias que lhe dedico  atenção extrema em cuidados de spa: aspirado com leveza, tratado nas palminhas, alisado e coberto com mantinhas fofas para um aconchego em dias mais nevoentos, aliviado do calor e da luz quando lhe baixo as persianas para não se sentir afrontado com a temperatura excessiva, aligeirado com brisa, quando ela sopra ligeira e fresca…

para não se sentir completamente sozinho durante o dia – creio que não haverá grande diálogo com os móveis que o circundam, outra tribo, já se vê – deixo-lhe almofadas em tons suaves e materiais adequados, a interação há de tornar-se mais fácil.

e surgiu-me agora de repente uma ideia. face à quantidade e à facilidade com que muitas  pessoas  publicam livros hoje em dia, vou pensar em dedicar uma prosa consistente ao meu sofá cinzento. assim mesmo com este nome: ” o meu sofá cinzento”. como também está muito na moda o crowdfunding, vou propor tímida e descaradamente-numa espécie de exercício paradoxal matinal, anda tão parada este tipo de manobra –  uma ajudinha para a futura publicação.

se lhes parecer bem, conversaremos.

coisas minhas, desabafos em rodapé

maquilhagem tons pastel

são tons escolhidos por quem sabe, e muito suaves. pelo menos, parece.

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assim precisava eu, que estivesse a minha semana, também ela, maquilhada de tons pastel.

se tivesse tempo, discorria em parágrafos pastel, tom sobre tom, o quanto estas cores podiam significar numa semana intensa de afazeres. infelizmente, o trabalho acumulado em cima da mesa, não se compadece com modas e tendências. é sempre o mesmo: monótono,  carregado de uma palete cromática , às vezes, muito aborrecida.

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coisas minhas, desabafos em rodapé

passatempo

carro. ao volante. devagar. há passadeiras. há que parar. e naquele meio instante, porque estou em transição, já travei, mas parece que posso ainda avançar um pouquinho mais, um movimento que não é nem deixa de ser- espera-se- olho o transeunte: o peão. observo-o fugazmente se é rápido e não aborrece o condutor, e mais demoradamente se é daqueles que sofre de reumatismo cerebral, que não lhe permite  perceber que podia despachar-se, mas não quer. naquele momento sou uma analista de perfis. traço-lhe toda a personalidade a partir daquele momento. a psicologia envolvida neste raciocínio exige sagacidade.

 

hoje, apenas uma pessoa: género feminino, às nove  e meia da manhã :de cenho carregado, olhar perdido numa fúria lá muito sua, e uma zanga latente nas passadas. passatempo fugaz, mas que está a resultar muito bem para uma manhã de sexta-feira.

OLGA

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bom dia.

coisas minhas, desabafos em rodapé

a minha mãe descende de uma linhagem

a minha mãe descende de uma  linhagem ,cuja heráldica se impõe pela máxima:  “antigamente é que havia homens de verdade”, e lá se foi vivendo uma época, onde havia homens que a tudo presidiam e a tudo eram poupados. uma vez chegados a casa, estes homens de antigamente não podiam ser incomodados com coisíssima nenhuma. muitas revoluções depois, movimentos e manifestações, “maios de 68” “movimentos hippies” e assim, fui dada a observar a teimosia de uma gaiata de uns dois anos, que teimava em andar com as mãos pelo chão. a mãe, muito atenta, ordenava-lhe com voz macia que tirasse as mãos do chão.  repetiu algumas vezes, e   a petiza fazia ouvidos de mercador e desafiava. mudando de estratégia diz-lhe a mãe: “olha o pai, ali”. a mão saiu do chão.