falar sozinha

pratico muito. desenvolvi uma técnica “à ventríloquo”, tal como eles, falo sem mexer os lábios, mas para dentro.

isto, como estou  a explicar, entra na categoria de falar sozinha, ou são só pensamentos que vão chocalhando no meu interior, e ao andarem de um lado para outro, sem direção assistida, não passam de palavras mudas, expressas em silêncio? ficou-me a dúvida.

do arrepio matinal, ao arrepio abdominal

é que, parecendo que não, também arrepiam.

abdominais

Hugh Jackman; Matthew Mcconaughey Zac Hefron

abdominais 2

nem por isso…

abdominais 3

Ryan Gosling

la, la… fica-lhe bem…

abdominais 4

capitão América…não sei para que querem construir um muro…com heróis destes…

raptados daqui

ok, jamie callum -a ouvir, enquanto escrevo-  eu sei que tu sabes que adoro a tua música, e que não precisas de ginásio.

ilusão, deceção…

estava eu a preparar-me para sair de casa, de modo a dirigir-me ao laboratório de análises clínicas -onde sou freguesa há bastante tempo-  quando sou confrontada com a ignorância do local onde terei guardado a requisição das ditas. segunda-feira, treze de março.

aflição, procura, imprecação, perdão, imprecações, finalmente achada, mais folgada, preparo-me para analisar o estado do tempo. do lado de lá – há um vidro duplo a separar-me do exterior- o Sol expande-se em toda a sua grandeza. do lado de cá, agradece-se o cenário. do lado de lá, parece haver um certo movimento nos ramos ainda nus das árvores do jardim, no entanto, não lhe é dedicada a atenção devida. abre-se a janela para sentir o pulso ao exterior. parece-me estar tudo bem. após envergar o que me parecia ser adequado para sair à rua- iria a pé- desci as escadas- dispensei o elevador- conselho da cardiologista que acato obedientemente- e, com tantos travessões no texto, acabei também eu, a atravessar a estrada.

num instante, um manto enriquecido com um brocado rico em alfinetadas certeiras, trazidas pelo vento, envolve-me e lança-me num desfazer da ilusão de um dia soalheiro e aconchegante. não passou de uma quimera. era agora o momento da deceção, e do arrepio também. termino com um provérbio retirado ao meu arquivo de invenções súbitas sem necessidade:

dia arrepiado, ao trabalho é consagrado.

(provérbio acabado de inventar, inspirado numa realidade minha)

estou a ver focas na televisão

a esta hora, (passa um pouco da dezanove e trinta), a maior parte das pessoas pensa mais em preparar-se para se sentar à mesa – e  não há de tardar muito, e como não me apetece ser seguidista, liguei a televisão. aperto o botão do comando, o vermelho, espécie de fusível que põe tudo a trabalhar,  e sou inundada de imagens no net geo wild (é assim que aparece escrito no canto esquerdo do ecrã), um bonito ecrã, por sinal, muito direitinho, cheio de cores, e está a passar-me imagens de pequenas crias de foca- branquinhas, que é um regalo vê-las com tanto pelinho – e o narrador, num inglês muito bom, explica pormenores pertinentes sobre a espécie, mas não se demora, vai logo a seguir explicar a vida das raposas do ártico, e não tardou muito para me informar sobre a lindíssima flora que me enche todas as polegadas que o ecrã tem- e ainda são bastantes, as polegadas, e as flores de um rosa carmim (existe essa cor?) que apareceram, mas logo desapareceram. ora, se eu multiplicasse o tamanho do ecrã pela área do ártico que está a ser filmada, era capaz de obter um resultado aproximado da quantidade de colorido floral ali captado, mas não tenho tempo, pois estou já com corpanzis de búfalos a ocuparem-me a vista. estou quase a terminar e os senhores, lá do canal acima indicado, delicadamente, dão-me a ver uns pequenotes muito amarelinhos que acabaram de se esconder debaixo da asa de sua mãe – gansa- daquelas que nunca foram patinhos (as)feios (as).

a senhora do óbvio

acumulara reputação. dona de uma quantidade absurda de irrefutáveis, incontestáveis e evidentes – dizia-se mesmo que nem sabia o que possuía, tinha uma grupo de contabilistas só para essa função – a senhora do óbvio era muito popular no seu bairro. a tudo acudia com resposta imaculada e sem direito a obscuridades. a sua fama alargou-se, ultrapassou fronteiras, e logo surgiram uns pequenos grupelhos prontos para a desestabilização do status quo -dizia-se à boca pequena que eram elementos pertencentes a gangues, crime organizado no segmento do controverso, do refutável, do contestável. aquela proximidade afigurava-se perigosa. uma tensão latente tomou conta das ruas: enquanto uns observavam o óbvio em tudo, outros ousavam entrar no terreno do obscuro. viveram-se dias intensos, esperavam-se confrontos. os jornais evitavam o assunto, até que alguém com responsabilidades na área da jardinagem pública, observando o despontar naquele dia de março, soalheiro, uma tulipa, não conseguindo conter a emoção, perguntava aos transeuntes, se não era talqualmente, como as delicadas tulipas holandesas. todos lhe respondiam que era óbvio, e abanavam a cabeça. a senhora, essa, observava de cima da sua torre de marfim, e sorria.

nota : uma torre de marfim fica sempre bem num amontoado de parágrafos sem nexo. acho eu!