coisas minhas, desabafos em rodapé

e se me desse agora

para desatar a escrever tudo em diminutivos, como quem faz um desabafozinho, nesta manhã cinzentinha, onde corre um arzinho assim friito, capaz de nos aborrecer os ossinhos?

e então? vocês eram pessoas para perder um tempinho a ler? sim? obrigadinhos.

e se

o fizesse, à espera que um solzito aparecesse, para me dar vontade de começar a fazer a malita destinada a uma voltinha que tenho agendada já há um tempito, ou tempinho, vá?

logo se vê.

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coisas minhas, desabafos em rodapé

é muito importante falar de sofás

pode parecer um assunto enfadonho e uma artimanha para apanhar leitores desprevenidos. pode sim, cada um julgará por si à posteriori, no entanto, parece-me que não é de todo desajeitado chamar o assunto à luz de uma terça-feira soalheira, quente para a estação. logo para começar, estou a escrever recostada nas almofadas do meu sofá cinzento. inerte, quedo e mudo, é um ouvinte a estimar. partilhamos momentos: ele mais circunspecto, eu mais aberta à palavra, ele mais reservado, eu a espraiar-me em aleluias ou lamentações. não se queixa, está cá sempre pronto para o que lhe trago todos os dias. tem dias que lhe dedico  atenção extrema em cuidados de spa: aspirado com leveza, tratado nas palminhas, alisado e coberto com mantinhas fofas para um aconchego em dias mais nevoentos, aliviado do calor e da luz quando lhe baixo as persianas para não se sentir afrontado com a temperatura excessiva, aligeirado com brisa, quando ela sopra ligeira e fresca…

para não se sentir completamente sozinho durante o dia – creio que não haverá grande diálogo com os móveis que o circundam, outra tribo, já se vê – deixo-lhe almofadas em tons suaves e materiais adequados, a interação há de tornar-se mais fácil.

e surgiu-me agora de repente uma ideia. face à quantidade e à facilidade com que muitas  pessoas  publicam livros hoje em dia, vou pensar em dedicar uma prosa consistente ao meu sofá cinzento. assim mesmo com este nome: ” o meu sofá cinzento”. como também está muito na moda o crowdfunding, vou propor tímida e descaradamente-numa espécie de exercício paradoxal matinal, anda tão parada este tipo de manobra –  uma ajudinha para a futura publicação.

se lhes parecer bem, conversaremos.

coisas minhas, desabafos em rodapé

o antunes era bom moço

o Antunes era bom moço. pena era aquela cabeça quadrada. nunca percebeu por que razão não se lhe arredondara como a todos seus vizinhos: os vizinhos de cima e os vizinhos de baixo. naquela aldeia era o único, era assim uma espécie de fenómeno. o mais enervante era ter aquela sensação de ter um pensamento quase a estoirar-lhe nos miolos e nada. não o conseguia levar a cabo, pois esbarrava-lhe nas esquinas da sua quadrada cabeça. morriam ali, pronto, sem contemplação, num suspiro pouco audível, pois já se vê  que, sendo pensamentos, os decibéis estavam-lhe vedados. de tanto pensar, e sem conseguir levar até ao fim nenhum esboço mental, cresceram-lhe os olhos. esses, de tão grandes e arredondados esbugalharam. tão arregalados os tinha, que não tardou que toda aldeia o conhecesse por Antunes o “ mais olhos que barriga”. coitado do Antunes, era bom moço.

coisas minhas, desabafos em rodapé

a senhora do óbvio

acumulara reputação. dona de uma quantidade absurda de irrefutáveis, incontestáveis e evidentes – dizia-se mesmo que nem sabia o que possuía, tinha uma grupo de contabilistas só para essa função – a senhora do óbvio era muito popular no seu bairro. a tudo acudia com resposta imaculada e sem direito a obscuridades. a sua fama alargou-se, ultrapassou fronteiras, e logo surgiram uns pequenos grupelhos prontos para a desestabilização do status quo -dizia-se à boca pequena que eram elementos pertencentes a gangues, crime organizado no segmento do controverso, do refutável, do contestável. aquela proximidade afigurava-se perigosa. uma tensão latente tomou conta das ruas: enquanto uns observavam o óbvio em tudo, outros ousavam entrar no terreno do obscuro. viveram-se dias intensos, esperavam-se confrontos. os jornais evitavam o assunto, até que alguém com responsabilidades na área da jardinagem pública, observando o despontar naquele dia de março, soalheiro, uma tulipa, não conseguindo conter a emoção, perguntava aos transeuntes, se não era talqualmente, como as delicadas tulipas holandesas. todos lhe respondiam que era óbvio, e abanavam a cabeça. a senhora, essa, observava de cima da sua torre de marfim, e sorria.

nota : uma torre de marfim fica sempre bem num amontoado de parágrafos sem nexo. acho eu!

coisas minhas, desabafos em rodapé

tornado

ré o nome do balde que alberga a esfregona cá de casa.  vende-se em duas versões cromáticas: vermelho e cinzento. eu preferi o grey. não tem nada a ver com as sombras do outro, é só porque combina bem com a esfregona de longos cordéis brancos do mais fino algodão. ainda conjuga lindamente com o sofá da minha sala. 17 litros de capacidade . uma autêntica bomba.

balde

podia ter optado por aquela máquina infernal – no segmento esfregona, o tema do post continua a ser o mesmo- que centrifuga da forma mais hábil que os meus olhos já assistiram, poder podia, mas não achei que valesse a pena. é muita termodinâmica. e, para quem tem, uma caldeira lamborghini – aquecimento central- possuir agora, um balde tão avançado, não ia fazer bem ao meu equilíbrio mental.

continuação de um bom dia.

desabafos em rodapé

delírium, ou como os dedos podem escrever coisas.

as memórias são coisas muito bonitas. mas há pessoas que acham o contrário. terras há, onde não existem memórias. naquela, em particular, tinham sido todas subtraídas por um homenzinho – funcionário estatal- agastado pela vida.  sempre que passava por alguém que, no início da conversa, se punha com :”lembra-se amigo… daquela vez em que…” o raio do homem, desatava numa gritaria de tal ordem, que não havia ninguém capaz de se lembrar de mais alguma coisa, tal era a açorda em que ficavam feitas as ditas.  agora, empapadas,já não se destrinçavam umas das outras, eram inúteis. já não serviam , nem para conversa de taberna, nem para serões à lareira, ou noutro sítio qualquer. havendo alguém que ainda se lembrasse de alguma coisa, não podendo esconder, entregava todo o conteúdo ao tal funcionário muito zeloso do seu papel. destino dado a tal fortuna? enterrava-as bem fundo em terreno estéril, passível de ser atacado por fungos e doenças malignas da terra, não fosse brotar ali um campo cheio de memórias novinhas, viçosas, capazes de acrescentarem ainda mais substrato àquelas que já existiam, mas que foram enterradas. um dia, uma mulher baixa e atarracada que, vinda de uma outra localidade, não sabendo que estava a entrar em terreno hostil no que às memórias dizia respeito, desatou  a contar histórias a quem passava, ali na praça, onde se vendia de tudo um pouco, dizendo sempre: “se bem me lembro…” ! ora, não havendo memória naquela terra de alguém evocar a memória, e ilustrar o presente com um pouco do passado, foi denunciada e encarcerada num barracão cheio de courgetes prontas a embarcarem para inglaterra. não há memória de mais pormenores sobre o que se terá passado a seguir.