coisas minhas

história de uma lula

vinha muito enroladinha, muito juntinha a mais outras tantas. muito congeladinhas, apesar do frio não ser um exagero, o facto, é que vinha muito agarrada às demais. depois de algum tempo foi ao banho, desempoeirou-se, e foi fazer companhia a um picado de cebola e alho, com tomate e uma folha de louro, uma data de amigos, portanto. como ela não vinha sozinha no pacotinho adquirido na superfície comercial, não demorou muito tempo que se fizessem todas juntas ao preparado do tacho. do lado do frigorífico ouvia-se uma voz, fininha, parecia vir também do reino do gelo. fui ver. era um pimento que proclamava conforme podia, também ter direito  a juntar-se à festa, pois estava bem quentinho naquele tacho. lá lhe fiz a caridade. era agora um grupo já muito composto, mas ainda faltava algo. eu bem me parecia observar alguma agitação naquela fundo preto, mesclado agora de tantas cores, e não foi difícil perceber que as rodelas de chouriço seriam as próximas a entrar . e lá estavam elas muito sorridentes, e a profusão de cheiros já me inundava a cozinha, quando me lembrou que seria melhor ligar o exaustor. senão vejamos: isto tem a sua graça, mas os odores são rápidos a proliferar, e se não os agarrarmos a tempo naquela sucção  preciosa, temos uma refeição perpetuada no tempo, que as janelas não queriam movimento, uma vez que o vento era forte e a chuva ameaçava cair. uma maçada. e a nossa lulinha? lá andava num rodopio, muito admirada de se ver com espécies tão diferentes, e qual não foi o seu espanto quando se viu submersa num amontoado de feijão manteiga, que não perdeu tempo a vir para o prato, onde o aguardava cerimoniosamente uma pequena elevação de bagos de arroz branco que tão bem compunha aquele festival de cores. estava muito agradável.

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coisas minhas, desabafos em rodapé

e se me desse agora

para desatar a escrever tudo em diminutivos, como quem faz um desabafozinho, nesta manhã cinzentinha, onde corre um arzinho assim friito, capaz de nos aborrecer os ossinhos?

e então? vocês eram pessoas para perder um tempinho a ler? sim? obrigadinhos.

e se

o fizesse, à espera que um solzito aparecesse, para me dar vontade de começar a fazer a malita destinada a uma voltinha que tenho agendada já há um tempito, ou tempinho, vá?

logo se vê.

coisas minhas, desabafos em rodapé

é muito importante falar de sofás

pode parecer um assunto enfadonho e uma artimanha para apanhar leitores desprevenidos. pode sim, cada um julgará por si à posteriori, no entanto, parece-me que não é de todo desajeitado chamar o assunto à luz de uma terça-feira soalheira, quente para a estação. logo para começar, estou a escrever recostada nas almofadas do meu sofá cinzento. inerte, quedo e mudo, é um ouvinte a estimar. partilhamos momentos: ele mais circunspecto, eu mais aberta à palavra, ele mais reservado, eu a espraiar-me em aleluias ou lamentações. não se queixa, está cá sempre pronto para o que lhe trago todos os dias. tem dias que lhe dedico  atenção extrema em cuidados de spa: aspirado com leveza, tratado nas palminhas, alisado e coberto com mantinhas fofas para um aconchego em dias mais nevoentos, aliviado do calor e da luz quando lhe baixo as persianas para não se sentir afrontado com a temperatura excessiva, aligeirado com brisa, quando ela sopra ligeira e fresca…

para não se sentir completamente sozinho durante o dia – creio que não haverá grande diálogo com os móveis que o circundam, outra tribo, já se vê – deixo-lhe almofadas em tons suaves e materiais adequados, a interação há de tornar-se mais fácil.

e surgiu-me agora de repente uma ideia. face à quantidade e à facilidade com que muitas  pessoas  publicam livros hoje em dia, vou pensar em dedicar uma prosa consistente ao meu sofá cinzento. assim mesmo com este nome: ” o meu sofá cinzento”. como também está muito na moda o crowdfunding, vou propor tímida e descaradamente-numa espécie de exercício paradoxal matinal, anda tão parada este tipo de manobra –  uma ajudinha para a futura publicação.

se lhes parecer bem, conversaremos.

coisas minhas, desabafos em rodapé

o antunes era bom moço

o Antunes era bom moço. pena era aquela cabeça quadrada. nunca percebeu por que razão não se lhe arredondara como a todos seus vizinhos: os vizinhos de cima e os vizinhos de baixo. naquela aldeia era o único, era assim uma espécie de fenómeno. o mais enervante era ter aquela sensação de ter um pensamento quase a estoirar-lhe nos miolos e nada. não o conseguia levar a cabo, pois esbarrava-lhe nas esquinas da sua quadrada cabeça. morriam ali, pronto, sem contemplação, num suspiro pouco audível, pois já se vê  que, sendo pensamentos, os decibéis estavam-lhe vedados. de tanto pensar, e sem conseguir levar até ao fim nenhum esboço mental, cresceram-lhe os olhos. esses, de tão grandes e arredondados esbugalharam. tão arregalados os tinha, que não tardou que toda aldeia o conhecesse por Antunes o “ mais olhos que barriga”. coitado do Antunes, era bom moço.

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a senhora do óbvio

acumulara reputação. dona de uma quantidade absurda de irrefutáveis, incontestáveis e evidentes – dizia-se mesmo que nem sabia o que possuía, tinha uma grupo de contabilistas só para essa função – a senhora do óbvio era muito popular no seu bairro. a tudo acudia com resposta imaculada e sem direito a obscuridades. a sua fama alargou-se, ultrapassou fronteiras, e logo surgiram uns pequenos grupelhos prontos para a desestabilização do status quo -dizia-se à boca pequena que eram elementos pertencentes a gangues, crime organizado no segmento do controverso, do refutável, do contestável. aquela proximidade afigurava-se perigosa. uma tensão latente tomou conta das ruas: enquanto uns observavam o óbvio em tudo, outros ousavam entrar no terreno do obscuro. viveram-se dias intensos, esperavam-se confrontos. os jornais evitavam o assunto, até que alguém com responsabilidades na área da jardinagem pública, observando o despontar naquele dia de março, soalheiro, uma tulipa, não conseguindo conter a emoção, perguntava aos transeuntes, se não era talqualmente, como as delicadas tulipas holandesas. todos lhe respondiam que era óbvio, e abanavam a cabeça. a senhora, essa, observava de cima da sua torre de marfim, e sorria.

nota : uma torre de marfim fica sempre bem num amontoado de parágrafos sem nexo. acho eu!