coisas minhas, desabafos em rodapé

D. Palmira e o comunicado

solicitava-se a presença célere de D. Palmira, pois era portadora de um importante comunicado, e já se sabe que um comunicado se não for pronunciado a tempo e horas perde validade, e entranham-se -lhe pequenas quantidades de mofo cronológico de uma inutilidade atroz.  claro que ninguém queria que o comunicado de que a D. Palmira era portadora, se finasse assim tão anonimamente. iniciou-se logo ali uma demanda por D. Palmira. várias foram as pessoas que de imediato se propuseram ir à sua procura. entretanto, alguém se lembrou que tinha trazido doce de abóbora, para barrar em bolachas de água e sal, quadradas e crocantes. depressa este chamariz de açúcar aglutinou todo um círculo de gulosos à volta de uma tigela de barro genuíno e tradicional, que levou ao abandono da demanda iniciada. sobre o comunicado e D. Palmira, creio que até à hora a que relato- treze horas e sete minutos- não mais foi avistada. as bolachas estavam supimpas. ó se estavam.

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coisas minhas, desabafos em rodapé

palavras sob o calor de outono

a tarde corria mansa . o calor ateava por todos os poros, e o outono não se fazia sentir. na poltrona de sempre, cor acastanhada, nem clara nem escura, talvez cor de mel, onde os pés não me chegavam ao chão, esperava eu que o tempo se diluísse sem soluços ou espirros de notícias inquietantes. a janela, aberta em báscula, deixava entrar uns fiapos de vento quente que,  ao mesmo tempo, fazia “barriga” na cortina transparente, ornada de uma linha vertical em relevo com uma cor mais acentuada, mas pouco, elaborando feitios e rodopios, prendendo a atenção com efeito quase hipnótico. de resto, tudo o mais era silêncio. lá fora, tudo muito quieto, e o calor, canícula, para vincar a intensidade, nem à cigarra dava oportunidade (talvez já tenham partido em busca de outras paragens), mas de um galinheiro ali perto, sentiu-se vida. uma galinha cacarejou.uma outra deu-lhe resposta. foi só meio cacarejo. talvez fosse do calor, ou só para arrematar conversa.

coisas da vida, desabafos em rodapé

coisas cá nossas

era expectável o mundo noticioso no dia de hoje. entre a visita de sua santidade, o campeonato do benfica e a música vencedora do eurofestival, não seria de  esperar mais variedade de assuntos. ainda anestesiados por esta tróica avassaladora, é natural que o país acorde para a vida mais daqui a bocadinho. não faz mal, anda esta terra muito necessitada de autoestima. depois das últimas semanas em que as notícias nos enchiam com os  100 dias de trump; os novos poderes para erdogan, na turquia; o suspense em frança; o brexit… em toda esta divisão que por aí pulula, em que graves problemas opõem cidadão do mesmo país, com todas as consequências desastrosas que daí podem advir, é reconfortante perceber que, neste país, os únicos ódios que se alimentam, relacionam-se com os clubes de futebol, nomeadamente aqueles que se dizem os 3 grandes . percebe-se nas conversas  dos comentadores que dormem durante a semana na televisão -de vez em quando devem ir a casa – nos comentários das chamadas redes sociais, nas conversas que ouvimos sem querer, em lugares públicos.

é fascinante perceber a elevação de carácter daqueles cidadãos, cuja capacidade maior, consiste em   congratular -se com algo que prejudique o clube rival. mas não é só com o futebol que se esgota a mesquinhez. em qualquer ato público que envolva algo, ou alguém, no caminho de uma vitória, os avinagrados da vida hão de sempre encontrar motivos para denegrirem o sucesso alcançado.

a incapacidade de se congratularem é uma doença grave, pestilenta. mesmo não gostando – é um direito que lhes assiste-  ficava-lhes melhor o silêncio, que o fel destilado. é  um fado que não nos larga, este, das vistas curtas e mal definidas. heranças infelizes.

 

 

coisas minhas, desabafos em rodapé

programa perda de peso

é o que tem sido feito neste blog. palavras para que vos quero? venham elas pelo bom caminho e serão bem recebidas, enquanto andarem por atalhos sem destino, o melhor é recolherem-se e pensarem melhor qual a sua função, aqui, a partir de um sofá cinzento. hoje é domingo. pingou um pouco. mais lá para baixo em relação ao sítio onde moro, há farturas. dizem que são as melhores. enquanto ponho ordem no equilíbrio que quero para este espaço ( reflexão que vai demorar o seu tempo), acho que posso muito bem ir em busca daquela massa frita que, quando se encontra com o açúcar branco refinado e aquele pó castanho de odor intenso, dá-se ali uma junção de tal forma bem conseguida, que se esquece o mal que faz, pelo bem que sabe. só para apreciadores.

o meu sofá cinzento, num domingo cinzento e pingudo.

coisas da vida, desabafos em rodapé

liberdades ao nível da caligrafia

que agora com as receitas eletrónicas acabaram. uma pena, sem dúvida. era todo um exercício de adivinhação, dedução, perceção do que ali estaria escrito, quando os médicos, à mão, ortografavam naquele papelinho branco com vinheta colorida, a panaceia que nos haveria de aliviar das dores. acabou. o mistério foi-se: o esforço realizado em toda e qualquer farmácia no sentido de decifrar aquilo que muita gente apelidava de gatafunhos, é já um cenário do pretérito. tudo se acaba. senhores doutores, a vossa imagem de marca… a designação “letra de médico” pertence a um passado recente. essas liberdades ao nível da caligrafia são agora uma recordação de uma manhã chuvosa de quarta -feira, semana em que a primavera chegou, mas não vingou . ainda.

letras de médico

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coisas da vida, desabafos em rodapé

a cantar de galo,

pelo menos até ao próximo fevereiro de 2018, parece-me. o ano novo chinês é todo ele revestido de cores, encantos e boas energias. mas só para alguns. nada de novo, afinal. o galo irá cantar para uns, desafinar para outros. no fim, far-se-á o balanço. a mim, dizem-me que sou porco. será, será, eles têm uma cultura milenar. hão de acertar nalguma coisa. o que me chateia ser porco tem a ver com a cor rosada e o pelo crespo. que desagradável.

boa noite.