fizeram-me uma radiografia

O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”

Florbela Espanca

correção: eu sou pessimista. e logo a seguir exaltada…

dia de cogumelo

Soneto do Guarda-Chuva

Ó meu cogumelo preto
minha bengala vestida
minha espada sem bainha
com que aos moiros arremeto

chapéu-de-chuva, meu Anjo
que da chuva me defendes
meu aonde por as mãos
quando não sei onde pô-las

ó minha umbela – palavra
tão cheia de sugestões
tão musical tão aberta!

meu pára-raios de Poetas
minha bandeira da Paz,
minha Musa de varetas!”

Sebastião da Gama

liberdades ao nível da caligrafia

que agora com as receitas eletrónicas acabaram. uma pena, sem dúvida. era todo um exercício de adivinhação, dedução, perceção do que ali estaria escrito, quando os médicos, à mão, ortografavam naquele papelinho branco com vinheta colorida, a panaceia que nos haveria de aliviar das dores. acabou. o mistério foi-se: o esforço realizado em toda e qualquer farmácia no sentido de decifrar aquilo que muita gente apelidava de gatafunhos, é já um cenário do pretérito. tudo se acaba. senhores doutores, a vossa imagem de marca… a designação “letra de médico” pertence a um passado recente. essas liberdades ao nível da caligrafia são agora uma recordação de uma manhã chuvosa de quarta -feira, semana em que a primavera chegou, mas não vingou . ainda.

letras de médico

imagem

por causa de uma galinha!

a galinha vinha endereçada. trazia remetente e destinatário. sem carimbos ou selo postal chegou a casa já em estado pronto a cozinhar. tentando fugir a questões filosóficas, a pessoa que a enviava recomendava trato e cautela, que a carne era tenra. após averiguar o tamanho da panela e a envergadura do conteúdo, tudo parecia estar em conformidade. o entusiasmo por carne já foi maior aqui, no 3º esquerdo, mas não tendo ainda renunciado a essa forma de alimento, os sentidos encaminhavam-se já para os odores que invadiam o ar da cozinha, com aromas próprios de um ambiente a lembrar outros tempos. esta descrição quase poética, se se desse o caso de adentrar pelo derrame de parágrafos pejados de sensações, era agora empratada com os melhores adjetivos e outros recursos tão bem empregues, que não deixariam ninguém indiferente. no entanto, agora que o público leitor estava já agarrado ao suspense – afinal era galo, ou galinha?- transmitido por estas linhas tão singelas, temo que o barulho do exaustor e o apito da panela de pressão tenham estragado toda uma ambiência que se previa repleta daquilo que quiséssemos imaginar: a toalha de linho- quiçá um domingo de festa, ruas enfeitadas – quem sabe uma aldeia na páscoa- cheiro de pão acabado de cozer- ou talvez, e também, leite creme queimado com aquele ferro preto, espalmado- não querias, mais nada, já estás  a pedir demais, anda, acaba lá isto, para as pessoas irem à sua vida.

então, está bem. fim. a galinha estava boa, já agora. ou se calhar era galo, sei lá eu.

passageiro clandestino

filha entretanto crescida, está de novo em trânsito. na mala colocou o essencial, entre o frio e algum sol que possa vir a fazer entretanto, lá vai tudo arrumadinho. aproveitando que a mala estava aberta, consegui enrolar entre camisolas e outros essenciais uns abracinhos . também lá vai um nadinha de preocupação, dessassosego e inquietação – o mundo anda muito perigoso. assim desmultiplicado parecem muitos, mas no fundo, no fundo, passageiro clandestino é mesmo o aperto. enquanto lhe via fechar a mala, eu fazia esforços para não o deixar fugir de onde estava…em vão. conseguiu escapulir-se e fechar-se lá dentro. ela não sabe. os senhores do avião também não. não denuncio a situação. murmuro-a, só como desabafo.

o antunes era bom moço

o Antunes era bom moço. pena era aquela cabeça quadrada. nunca percebeu por que razão não se lhe arredondara como a todos seus vizinhos: os vizinhos de cima e os vizinhos de baixo. naquela aldeia era o único, era assim uma espécie de fenómeno. o mais enervante era ter aquela sensação de ter um pensamento quase a estoirar-lhe nos miolos e nada. não o conseguia levar a cabo, pois esbarrava-lhe nas esquinas da sua quadrada cabeça. morriam ali, pronto, sem contemplação, num suspiro pouco audível, pois já se vê  que, sendo pensamentos, os decibéis estavam-lhe vedados. de tanto pensar, e sem conseguir levar até ao fim nenhum esboço mental, cresceram-lhe os olhos. esses, de tão grandes e arredondados esbugalharam. tão arregalados os tinha, que não tardou que toda aldeia o conhecesse por Antunes o “ mais olhos que barriga”. coitado do Antunes, era bom moço.