coisas da vida, desabafos em rodapé

já a ouço

chuva. assola-me um sentimento infantil. poderá não ser suficiente para aplacar uma sede de meses, mas talvez chegue para boicotar os atos criminosos perpetrados por alguém – ou talvez seja  plural- a quem os incêndios parecem proporcinar um meio de vida. uma espécie de ganha pão com lucros chorudos.

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coisas minhas, desabafos em rodapé

palavras sob o calor de outono

a tarde corria mansa . o calor ateava por todos os poros, e o outono não se fazia sentir. na poltrona de sempre, cor acastanhada, nem clara nem escura, talvez cor de mel, onde os pés não me chegavam ao chão, esperava eu que o tempo se diluísse sem soluços ou espirros de notícias inquietantes. a janela, aberta em báscula, deixava entrar uns fiapos de vento quente que,  ao mesmo tempo, fazia “barriga” na cortina transparente, ornada de uma linha vertical em relevo com uma cor mais acentuada, mas pouco, elaborando feitios e rodopios, prendendo a atenção com efeito quase hipnótico. de resto, tudo o mais era silêncio. lá fora, tudo muito quieto, e o calor, canícula, para vincar a intensidade, nem à cigarra dava oportunidade (talvez já tenham partido em busca de outras paragens), mas de um galinheiro ali perto, sentiu-se vida. uma galinha cacarejou.uma outra deu-lhe resposta. foi só meio cacarejo. talvez fosse do calor, ou só para arrematar conversa.

coisas minhas, desabafos em rodapé

cozi maçãs

o fogão inundou-se de calor à hora de jantar. se por um lado, havia quem dissesse que não fazia tenção de comer o que quer que fosse, havia também quem desejasse  o famoso prato “pode ser”, iguaria que tem presença assídua no menu, aqui do terceiro esquerdo. atendendo a um principio de enxaqueca, ficou decidido que a refeição haveria de ser frugal. caso houvesse reclamações, tenho um quadro com íman numa parede do frigorífico, era aproveitar. quanto à chegada de resposta, logo se veria quando, pois a hora de atendimento ao fim de semana varia. corria bem a fervedura, parecia estar tudo bem encaminhado, e a canja que se previa ser um placebo para um principio de enxaqueca, acabou mesmo por servir de refeição. e apenas. todavia, receando pela escassez de variedade na mesa, aproveitei e cozi maçãs. golden. bem amarelas. aditivadas com canela  e com cravinho durante a cozedura. ferveram com um ar dócil e desfizeram-se  – quase- no prato, quando finalmente se viram soltas naquela superfície de porcelana, escorregadia, que lhes permitiu espreguiçarem-se sem cerimónia. depois comeram-se. fim.

coisas da vida, desabafos em rodapé

homeopatia

andava a  vida entre perdidos e achados. às vezes, os perdidos, porque em maior quantidade, submergiam os achados, quando eles se tornavam bons para a continuidade. neste equilíbrio/desequilíbrio, até parecia que pensar bem e positivo haveria de chegar para alcançar tudo o que o céu prometera.

entretanto, um calendário.

ali, pendurado numa parede com um ar gasto pela pouca temperança, fazia perceber uma vida que se escoara umas vezes mansa, outras mais turbulenta. uma vida que clamara por tratamento, e quando  veio a a receita, uns, insistiam em doses fortes aprovadas cientificamente, já outros, opinavam ser melhor olhar para dentro, e procurar cura lá mais no fundo…

a discussão instalou-se e a vida foi-se movendo em várias direções isentando-se de responsabilidades sempre que as doses mais fortes não resultavam, e não se coibia de desdenhar do efeito placebo.  bitch.